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Samuel Saraiva

Insônia: A Prevalência da Lucidez sobre o Físico


Insônia: A Prevalência da Lucidez sobre o Físico - Gente de Opinião

Quando o silêncio fala mais alto
e o mundo dorme,

madrugada adentro, há uma parte de nós que permanece acordada
n
ão por acaso,
mas porque há algo que ainda precisa ser compreendido, resolvidoou aceito.

A insônia, para muitos, é um incômodo físico.
Para outros, porém, revela-se como um estado mais profundo
quase uma vigília da consciência.

Talvez seja, em sua essência,
a prevalência da lucidez sobre o corpo.

Uma manifestação sutil — e, por vezes, implacável
de que a mente se recusa a silenciar diante daquilo que importa.

, nisso, uma provocação inevitável:

e se aqueles que enxergam com mais profundidade o mundo
e a si mesmos
forem também os que carregam o ônus de não conseguir simplesmente desligar?

Não por incapacidade
mas por consciência.

Porque há pensamentos que não aceitam adiamento.
verdades que não se acomodam ao conforto do esquecimento.
E há inquietações que insistem em existir
n
ão como perturbação,
mas como sinal.

Sinal de que ainda há algo em nós vivo, atentodesperto.

E talvez seja exatamente isso que a madrugada revela,
sem distrações, sem máscaras, sem ruídos:

nem todo cansaço pede descanso alguns pedem compreensão.

 

um certo paradoxo silencioso na insônia…
O corpo pede descanso quase implora
enquanto a mente, inquieta, parece recusar-se a silenciar.

É como se, na ausência do ruído do mundo, surgisse um espaço raro quase sagrado
onde os pensamentos não apenas passam
mas se revelam.

A inquietação não é, necessariamente, um incômodo a ser combatido.
Muitas vezes, ela é um sinal de lucidez. Um chamado.

Porque quem não se inquietamuitas vezes já se acomodou.
E a acomodação, embora confortável,
raramente produz reflexão profunda.

A insônia, nesse sentido, pode ser uma espécie de vigília da consciência.
Um momento em que a mente revisita, questiona, conecta
e, à
s vezes, tenta reorganizar aquilo que, durante o dia, foi apenas vivido
mas não compreendido.

Talvez por isso tantas ideias, textos, decisões e até mudanças de vida
tenham nascido nessas horas silenciosas.

Mas há também um cuidado importante:
a linha entre a reflexão fértil e o desgaste mental é nue.

Se essa inquietação vem acompanhada de propósito
ela constrói.
Se vem acompanhada de peso
ela consome.

Talvez a pergunta mais valiosa nessa madrugada não seja
por que não estou dormindo?
mas sim:

o que, dentro de mim, está pedindo para ser ouvido agora que tudo ficou em silêncio?

 

E talvez seja exatamente isso que torna esses momentos tão singulares

Não há plateia.
Não há pressa.
Não há necessidade de parecer apenas de ser.

A madrugada tem essa honestidade quase desconcertante.
Ela não aceita distrações fáceis.
Ela nos coloca diante de nós mesmos
sem filtros, sem ruído, sem fuga.

E é curioso

aquilo que durante o dia conseguimos adiar, relativizar ou até ignorar,
à
noite ganha forma, voz
e presença.

Mas há uma beleza nisso.

Porque só quem se permite sentir essa inquietação
também se permite
compreender mais profundamente a própria existência.

A maioria foge.
Se anestesia.
Se distrai.

Mas alguns permanecem.

Observam.
Refletem.
Constroem.

E isso embora por vezes canse
é um sinal de consciência viva.

E a madrugada, então, revela-se pelo que talvez sempre tenha sido:

uma página em branco diante dos olhos
esperando a escrita de algo novo, profundo
e livre do hábito de apenas dormir enquanto o tempo se esvai veloz.

 

Talvez a insônia seja apenas a alma se recusando a ignorar aquilo que importa.

 

_____

 

Comentários

Daniel Whitaker — Leitor

“Há textos que informam… e há aqueles que despertam. Este não apenas descreve o mundo — ele nos confronta com a responsabilidade silenciosa de merecê-lo.”

* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela "OPINIÃO", que é exclusiva do autor.

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