Quarta-feira, 23 de julho de 2014 - 07h16
Felipe Azzi
Chegou atrasado ao espetáculo. Circo lotado, sem restar espaço para um mosquito. Foi alojar a sua pessoa justamente no lugar onde ninguém, em juízo perfeito, sentaria, sendo recebido com sorrisos melosos de um latifúndio feminino, com cara de índio mexicano, que aconselhou:
– Tenha cuidado... esteja preparado!
JOÃO VILARINHO PIRES, amanuense cartorário e, nas horas vagas, tocador de Tuba na “Lyra Carlos Gomes”, sem nada entender, garantiu:
– De minha parte, a senhora pode ficar tranquila... Sempre estou preparado!
A atração do circo era o número do “Globo da Morte” com três motoqueiros rodando em suas máquinas em espaço limitado a cinco metros de diâmetro, numa circunferência metálica gradeada.
JACEGUAI DA SERRA, cidade incrédula. Nunca acreditou na Queda da Bastilha, na Independência do Brasil e, muito menos, que o homem pisara na Lua. Estava pagando pra ver o tal globo que causava morte. No pensar intimista, as pessoas imaginavam ser coisa de mágico maluco, de cabeça destrambelhada.
E, assim, esperava-se o início do espetáculo, quando, num repente, surge no picadeiro aquele leão dos infernos, urrando grosso como se fora uma imaginária “pororoca”, importada do amazônico delta paraense. A plateia, soltando medo pelas juntas, ficou de pé, sem se mover, tamanha a multidão. Eis que JONJOCA PIRES tenta se levantar e, a meio pau, trêmulo e lagrimando, suplica aos berros:
– SENTA, MINHA GENTE... QUE O LEÃO É MANSO!...
Ninguém sentou. O medo era maior que os ouvidos. Então, JONJOCA PIRES, preso pelos fundilhos, quase desfalecendo, retomou o discurso, desse modo preocupado, como cidadão que ama desveladamente o seu país:
– Esse leão é manso!... Não é como o desnaturado IMPOSTO DE RENDA que não respeita INFLAÇÃO e muito menos o CUSTO DE VIDA que anda pela hora da morte. Nem mesmo o PRODUTO INTERNO BRUTO é capaz de satisfazer a sua gula...
O discurso foi interrompido pelo desmaio que adveio, sendo JONJOCA PIRES socorrido como manda o regulamento desses imprevistos.
A fornalha do tempo queimou muitos anos. Mas, até hoje, ninguém sabe por que cargas d´água JONJOCA PIRES, no infeliz espetáculo, pedia insistentemente que o povo sentasse e, muito menos, a razão de seu histórico discurso político-econômico, pois que, nem político ou economista ele era.
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