Quarta-feira, 7 de agosto de 2013 - 17h20
Silvio Persivo(*)
É muito característico da época, e de grande atualidade, o filme “Hannah Arendt”, da escritora e cineasta Margarethe Von Trotta (“Os Anos de Chumbo”), que passeia por um período da vida dela, que vai de 1961 a 1964, bastante turbulento para Hannah, vivida por Barbara Sukowa (“Lola”). É um filme que mostra a filósofa que foi encarar o monstro Eichmann, acusado de matar milhões de judeus, e encontrou um burocrata medíocre (e os burocratas medíocres são os que mais banalizam o mal). E foi em torno deste choque que ela foi capaz de observar e tentar entender o que chamou de banalidade do mal, com uma coragem e uma honestidade intelectual incríveis, que, como sempre acontece com quem a tem, lhe causou um enorme mal-estar, muitas incompreensões, hostilidades e perseguição no seu trabalho e à sua figura. A busca de Hannah Arendt foi sempre a de querer entender e, de forma original, compreendeu que o mal pode se originar não da monstruosidade de uma opção política ou ideológica, mas, simplesmente da obediência cega, da inabilidade para pensar autonomamente e até mesmo da falta de motivo, do simples fato de que pessoas que não pensam, muitas vezes, somente sabem ter inveja, buscar tirar o brilho de quem tem brilho. É o que se vê, muitas vezes, nas pessoas pequenas, ainda mais quando crentes em alguma ideologia ou no próprio papel que desempenham. Julgam, condenam, difamam, falam sobre coisas que não entendem, repetem bordões ou palavras de ordem sem pensar e atingem as pessoas sem compreender que, neste mundo de Deus, tudo tem volta, há uma lei inexorável que é a do retorno. Mas, essas pessoas, incapazes de pensar, são cheias de certezas e preconceitos. E, por mais que o filme fale do passado, o mal e sua banalidade estão a toda hora à nossa volta, todos os dias.
O filme “Hannah Arendt” é, portanto, muito atual, atualíssimo. É uma narrativa simples, clássica, esclarecedora que não somente revela uma trajetória, um pensamento portentoso de uma figura humana admirável, como também demonstra que não é fácil se ter honestidade intelectual. Porém, o que mais me agrada é o comportamento da personalidade de Arendt que mostra um traço que admiro muito nas pessoas, e que sempre procurei cultivar, que é o de respeitar e procurar entender o outro, até mesmo quando se trata de adversários, de vez que jamais tive inimigos, embora, os que vivem no mal e sua banalidade, escolham seus inimigos de uma forma preconceituosa e aleatória, e, não, poucas vezes, atingindo justo a quem deveriam agradecer. Hannah Arendt era um ser assim e quem é capaz de buscar entender os outros, de gostar mesmo contra os evidentes defeitos, por compreender que as falhas são próprias da humanidade, certamente, se torna um ser humano melhor.
O filme tem o mérito de resgatar um tema polêmico e que nos desafia modernamente. E, entre outras coisas, tem o dom de desmistificar o pensamento comum de que exista uma entidade “o mal”, oposta a outra, “o bem”, num claro reducionismo, pois, seria muito confortável se o mal fosse um alvo externo, localizável, eliminável, mas, para desespero dos simplistas, dos que pensam em preto e branco, o bem e o mal estão dentro de nós mesmos, fazem parte de nossa miséria humana, de nosso DNA. Normalmente fazem o mal só por fazer mesmo. Mesmo as melhores pessoas podem ser as piores, dependendo das condições e do momento. Há mais “Eichmannzinhos” por aí do que se pode pensar. A banalidade do mal está em que, de fato, este tem suas raízes no próprio ser humano e enfrentá-lo não é tarefa fácil tendo em vista que as fronteiras entre o bem e o mal são tênues, quase que imperceptíveis, em especial, num mundo onde, muitas vezes, a verdade é a mentira propagada por muitos. O mal, de fato, nunca antes foi tão banal.
(*) É Doutor em Desenvolvimento Sustentável pelo NAEA/UFPª.
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