Terça-feira, 11 de outubro de 2011 - 19h40
É engraçado como se consolidam socialmente alguns estereótipos na psique popular. Talvez nenhum deles seja mais emblemático do que, por exemplo, a crença de que nossa sociedade se caracteriza por traços que a apontam como uma sociedade cordial, pacífica, sem imensos conflitos sociais. É claro que isto não poderia escapar do olhar científico e são muito conhecidas as palavras de Sérgio Buarque de Holanda que, em Raízes do Brasil, escreveu “A lhaneza no trato, a hospitalidade, a generosidade, virtudes tão gabadas por estrangeiros que nos visitam, representam, com efeito, um traço definido do caráter brasileiro, na medida, ao menos, em que permanece ativa e fecunda a influência ancestral dos padrões de convívio humano, informados no meio rural e patriarcal”.
Será que ainda é válida a análise feita no século passado, e publicada pela primeira vez em 1936, em que, supostamente, o transplante das relações sociais para o tecido macro da sociedade encobriria, ou amenizaria, as questões mais agudas e graves? Será assim atualmente? Vivemos ainda num país onde grassa a cordialidade? Ultimamente, creio que não, pois, sumiram os traços patriarcais, o predomínio das crenças do meio rural e na nossa realidade contemporânea, urbana e globalizada, o homem cordial se liquefez, com certeza. Nem irei apelar para os episódios de queimas de índios e mendigos ou as recentes agressões absurdas a casais gays ou até a quem num gesto de carinho acabou confundido e sendo espancado. Não há nada de cordial, por exemplo, no MST, nem nas invasões urbanas ou ocupação de edifícios por sem-teto nas cidades brasileiras. Nem mesmo os protestos de estudantes, funcionários públicos, de camelôs ou até movimentos negros e do hip-hop escondem uma violência que se manifesta ainda mais agressiva no trânsito e nos assaltos e roubos. Não faço crítica aos movimentos coletivos, mas, constato que até mesmo os crimes, no passado, eram mais delicados. Não existiam balas dum-duns, nem AR 15, nem se assaltava em grupo como hoje em dia acontece. A grande realidade é que não existe mais o homem cordial e o brasileiro cordial foi enterrado sem pompas num túmulo desconhecido.
Só constato que o Brasil ingênuo morreu. Que há uma violência gratuita mesmo nos grupos mais descompromissados com qualquer agenda política que reflete, talvez, a falta de compreensão dos fenômenos atuais, a impotência da construção de uma solução política para nossos problemas, pois, a grande realidade é a falta representatividade das políticas, dos políticos e das instituições. É imprescindível que se reflita sobre a nossa realidade, sobre um ativismo social que nos faça ter um pensamento estratégico, um planejamento da ação, uma proposta de futuro. Não podemos ficar ao sabor da mistura vazia entre o entretenimento, o marketing e a impostura sem abrir caminho para uma ação conseqüente, sob pena do Brasil cordial, sem a instrumentalização adequada, virar o Brasil da desordem, o Brasil caótico, o Brasil que voltou ao passado sem passar pelo futuro.
(*) É doutor em Desenvolvimento Sustentável pelo Núcleo de Altos Estudos Amazônicos da UFPª e professor da UNIR.
![]() |
![]() |
Fonte: Sílvio Persivo - silvio.persivo@gmail.com
Gentedeopinião / AMAZÔNIAS / RondôniaINCA / OpiniaoTV / Eventos
Energia & Meio Ambiente / YouTube / Turismo / Imagens da História
Além da superfície do ambiente de negócios
Segundo o Sebrae, em 2024, no Brasil foram abertos 4.141.455 novos negócios, o que representa 9,9% de crescimento em relação ao ano anterior. Este r
Gente de Opinião: uma trajetória de sucesso
De repente são 20 anos. De repente? Não, pois a história de sucesso do Gente de Opinião é uma trajetória que envolve muitas pessoas, muitas notícias
O aumento do combustível e da pobreza
Em economia não existem fórmulas mágicas ou, como é corrente em linguagem comum, não existe almoço grátis. Assim, como durante todo o ano de 2024 o
A importância do Turismo Responsável
A iniciativa de realçar a necessidade do turismo responsável foi tomada, em 2020, pelo Ministério do Turismo quando lançou o selo “Turismo Responsáv