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Gente de Opinião

Vinício Carrilho

Criações brasileiras


Muitas são as nossas criações positivas: o avião, o povo mulato como resultado da miscigenação, a criatividade como prova do cadinho cultural. E tantas outras são terríveis: a corrupção endêmica, o Estado Patrimonialista.

Entre uma e outra, pela particularidade com que as temos tratado, incluo a vinda da Copa e das Olimpíadas, além da Comissão da Verdade. O que há em comum nessas últimas é o efeito do factoide político criado. O factoide é uma mentira bem-vestida pelo marketing.

Sobre o marketing podemos falar outro dia – por exemplo, o fato de que o marketing brasileiro é um dos melhores do mundo, porque os produtos são vendidos por sua imagem a uma população analfabeta.

Hoje, o objeto é a Comissão da Mentira. Gostaria de saber o que a comissão vai nos dizer que eu e você leitor ainda não saibamos. Quanto vai se gastar para dizer que a ditadura torturou, esquartejou, matou ou mandou matar milhares de brasileiros?

Pensando pela ética e de esquerda, republicana, é óbvio que as atrocidades deveriam ser julgadas e os condenados pagarem por seus crimes. E aí está o imbróglio, a tal comissão não vai punir ninguém, apenas dizer quem fez o quê.

Ora, o que vamos ser informados é sobre os detalhes sórdidos do ocorrido. Isto para quem não sabe. Conheça, converse com um sobrevivente e ele lhe dirá o que passou para estar vivo. Conheço vários. A ditadura utilizou métodos nazistas de interrogatório, alimentando-se do sadismo criminoso.

Para quem nunca soube nada, como se estivesse vivendo fora da história, indica-se a leitura do livro “Brasil: Nunca Mais”. Não é preciso mais do que isso para saber como anda sua indignação com a história brasileira.

Então, para que a comissão? Não sairia mais barato – se assim ainda se julgar necessário – aprovar Projeto de Emenda Constitucional (se é uma questão de honra para a Presidente) que ampliasse o raio de ação do Habeas Data? Ou que ainda se criasse um novo tipo de Ação Civil Pública, uma vez que foram crimes cometidos contra a sociedade, sendo motivada por descendentes de vítimas da ditadura? Qualquer coisa teria mais sentido.

Aliás, tanto teria mais sentido que nem sequer foram debatidos pelo governo. Exatamente porque o resultado dessas ações, certamente, trariam implicações jurídicas – entre elas uma enxurrada de ações de indenização.
Então, volta a questão, para que esta comissão se nada será feito, além de dizer o óbvio ululante em detalhes?

O factoide alimentado pelo marketing político que aprisionou a mente dos brasileiros nas últimas décadas agora chegou a esta fase.

A comissão quer dizer ao mundo que nosso governo pretende apurar os fatos do passado, especialmente os relativos a graves violações dos direitos humanos. Ótimo, apuramos o passado, não punimos, e ainda deixamos de apurar, investigar o presente.

Enquanto reviramos o passado, para nada fazer com ele, o passado vai se tornando coisa esquecida, com os problemas de fundo empurrados para o futuro. O mofo e a poeira continuaram escondendo nossas traças históricas.

Só há um modo de rever o passado com responsabilidade: é quando nos despimos da arrogância para aprender com os erros.

É evidente que não será este o caso da comissão. Além do chorinho, que acredito sincero, o que mais vamos ter? Alguns dos agentes da ditadura estão falando mais do que deveriam e nem para esses o Estado serve de proteção. Já recebem ameaças de morte.

Mas, estariam falando demais sobre o que?

Volto a dizer, sobre o óbvio ululante, como dizia Nelson Rodrigues.

Sinceramente, gostaria de estar errado.

Gostaria que a comissão trouxesse algo de bom para todos os meus conhecidos brutalizados pelos agentes do Terrorismo de Estado brasileiro, de 64.

Profª. Ms. Fátima Ferreira P. dos Santos
Centro Universitário-UNIVEM/Marília

Prof. Dr. Vinício Carrilho Martinez
Universidade Federal de Rondônia

* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela "OPINIÃO", que é exclusiva do autor.

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