Quarta-feira, 1 de agosto de 2012 - 05h01
Queria escrever outro artigo para explicar porque ainda estou em estado de greve, na Universidade Federal - UNIR. Mas, deparei-me com uma matéria em que se destacava o crime maior que se comete contra os mais indefesos: “No Brasil, há um milhão de crianças sem escolas”. Diga-me o leitor, quem são as crianças sem escolas? Certamente não são as que os pais teriam acesso a artigos ou matérias como esta. Normalmente, são filhos de pais analfabetos totais ou funcionais e viventes em uma família que sobrevive sabe Deus como.
Um milhão de crianças sem escola? Haveria absurdo maior no século XXI para vermos no Brasil? O que é feito dos recordes de arrecadação fiscal? Sinceramente, não vejo crime mais grave do que a corrupção, para mim é pior do que o homicídio porque, com os recursos desviados, condenam-se milhares, milhões à morte, seja a morte física, seja a inércia intelectual, espiritual, em que o esqueleto mantém o sujeito sobre os pés, mas sem estar efetivamente de pé.
O quadro Abaporu de Tarsila do Amaral (1928) é mais do que arte ou história, é expressão atualíssima desse um milhão de crianças fora da escola. Na pintura, vê-se um hominídeo de cabeça miúda, mas de membros enormes, porque o brasileiro (Homem Cordial) não pensa; aliás, não sabe que pode pensar, porque nunca lhe ensinaram a pensar. Mas os pés e mãos gigantescos simbolizam a capacidade de trabalho, o êxodo rural, a migração.
Na verdade, o melhor pensamento social e político brasileiro formulou-se nos anos 1930, pela conhecida Geração de 30. É preciso frisar que esta década é a mais rica da história brasileira, uma “década clássica”, que ainda contaria com a chamada Revolução de 1930 e a ascensão de Getúlio Vargas. É desse período, por exemplo, a inauguração do Aeroporto de Congonhas (1936). Na educação é lançado o Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova.
Os principais “explicadores do Brasil” são Oliveira Vianna, Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda, Caio Prado Júnior. E são três os principais livros: Casa Grande e Senzala de Gilberto Freyre (1933), por exemplo, destaca o tratamento da vida sexual do patriarcalismo e a importante participação do escravo no modo de ser brasileiro. O autor baiano, porém, estaria restrito aos aspectos biológicos, como raça, aspectos sexuais da vida familiar, equilíbrio ecológico e alimentação.
Já o livro Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda, surgido três anos depois de Casa Grande e, como “clássico de nascença”, identificava a necessidade de novas soluções de entendimento para as posições políticas da época, ainda é movido pela descrença no liberalismo tradicional ou simplesmente pela busca do novo: à direita, com o integralismo; à esquerda, com socialismo e comunismo.
O terceiro livro, Formação do Brasil Contemporâneo de Caio Pardo Júnior, analisa a formação social brasileira com destaque para a relação entre forças produtivas e relações de produção, revelando-se em profunda crítica social, em que se destacam a expropriação do trabalho escravo e do trabalhador livre, as desigualdades sociais e as contradições de classes.
Quando olho para este passado e vejo a grandeza do pensamento social produzido sinto orgulho de ser brasileiro; porém, ao ver que os problemas estruturais de 1930, como exclusão social, analfabetismo, morte por fome, abandono sistemático da saúde pública, corrupção endêmica, não foram enfrentados, aí sinto que faria bem conhecer outras fronteiras.
Vinício Carrilho Martinez - Professor Adjunto II (Dr.)
Universidade Federal de Rondônia
Departamento de Ciências Jurídicas
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