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Gente de Opinião

Vinício Carrilho

O cinema leva à morte II


Vinício Carrilho Martinez - Professor Adjunto II (Dr.)
Universidade Federal de Rondônia
Departamento de Ciências Jurídicas

O cinema não leva à morte, se não quisermos matar. A arte leva à liberdade, se soubermos o que é liberdade. É neste sentido que podemos analisar as mortes ocorridas no cinema estadunidense.

Desse modo, filmes ou romances como Eu, Robô e O Homem Bicentenário, de Isaac Asimov, são lições de humanismo e nem por isso espelham a ânsia do homem comum. O preço da verdade, da liberdade não seria demasiado para o cinema, para a arte em geral. Na verdade, um preço que seria mais moderado se a inteligência social fosse menos instrumental (em alguns casos, sectária ou só coercitiva) e mais criativa.

No romance do Homem Bicentenário, o próprio robô, enquanto robô programado, ainda atado à programação típica e triunfal (como se fosse seu tipo de “razão instrumental”), também não notava de imediato que o caminho da liberdade vinha pela criação, ou seja, por sua própria total reprogramação – como se vê nesta passagem:

  • p. 57 : “— Está limitando o seu campo de ação – disse Paul, pensativo. — como artista plástico, toda concepção te pertence; como historiador, você lida principalmente com robôs; como biólogo de robôs, vai lidar apenas consigo mesmo”.

Em estágio semelhante a nós, humanos, o robô precisaria adquirir uma consciência e uma inteligência interativa (literária): o robô deveria se afastar do cientificismo, do positivismo mecanicista e se aproximar das humanidades.

O robô lutou para ser reconhecido como homem e em sua trajetória nos ensinou um pouco do que é preciso para vencer esse penoso e pesado processo de negações – aliás, vejamos:

  • p. 80 : “— Como que não vale a pena, se conseguir a minha condição humana? E, se não conseguir, vai acabar com toda essa luta e, portanto, também vale a pena”.

O robô sagrou-se campeão na luta pela descoisificação, queria ser humano, mas um humano decente, não mais um humano que repete ações como máquina, sem intensão, coração, apenas reagindo diante das situações que exigiriam ações provocativas:

  • p. 31 : “— Há cinquenta anos – disse o presidente diante de toda humanidade –, você foi proclamado o Robô Sesquicentenário, Andrew. – Fez uma pausa e depois, em tom mais solene, continuou: — Hoje nós o proclamamos Homem Bicentenário, Mr. Martin [...] Deitado na cama, Andrew aos poucos foi perdendo a consciência. Lutou desesperadamente para se manter lúcido. Homem! Era homem! Queria que fosse o seu último pensamento. Queria se desfazer – morrer – pensando nisso”.

Andrew (que já era um humano mortal e não mais um simples robô infalível) nos ensinou como a arte e a luta pelo reconhecimento são infinitamente superiores à razão instrumental, seja na ciência, na política, seja nos negócios. Portanto, toda luta pelo reconhecimento é uma luta pelo enraizamento da vida.

Andrew lutou, assim como outros tantos milhões, contra a desfigurada Modernidade Tardia — Andrew foi um robô-herói. O primeiro herói da pós-modernidade ou apenas um amante do humanismo. Tanto amou a humanidade que se propôs à finitude e à morte. Mas, foi levado à morte para se sentir mais humano e não para negar a humanidade a quem quer que fosse, matando o Outro, como fez o jovem no cinema.

* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela "OPINIÃO", que é exclusiva do autor.

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