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Luka Ribeiro

Sítio de Bagé - Parte VIII - História ao público


Sítio de Bagé - Parte VIII - História ao público - Gente de Opinião

Bagé, 25, 08.04.2020

 

Como uma leoa deitada e da mesma cor irada o pelame, a colina famélica. Em seus lombos terrosos, disseminados em uma ordem indecifrável, grosseiros montões de pedras: o cemitério dos hunos brancos. As vezes um adejo azul e rápido: um pássaro, único luxo em tanta morte. (Sharj Tepé)

 

 

 

A Federação n° 44

Porto Alegre, RS ‒ Quarta-feira, 21.02.1894

 

História do Sítio de Bagé

Ao Público

 

 

Estiveram encarregados do serviço médico das ambulâncias, os distintos médicos Drs. Lybio Vinhas e Carnaúba, que, com o maior desvelo, solicitude e dedicação, auxiliados pelo nosso companheiro o farmacêutico Martiniano Antonio Meirelles, prestaram aos infelizes feridos os seus profícuos e luminosos socorros. À proporção que a luta crescia, maior era o entusiasmo que dominava a intrépida guarnição encarregada da defesa da praça de Bagé. As tentativas e investidas do inimigo, foram sempre repelidas galhardamente pelos disciplinados e valorosos soldados e oficiais do 31° Batalhão, e contingentes dos diversos Corpos que guarneciam a praça.

 

Durante todo o dia 24, o inimigo fez fogo nutridíssimo para o interior da praça de guerra, respondendo esta com intermitências, pelo fato de nem sempre poderem ser descortinadas as posições do inimigo.

 

Um menino que se encaminhava para a praça, foi morto nesse dia por uma bala dos atacantes.

 

O tiro foi disparado propositalmente, por pensarem eles que essa criança era encarregada de levar-nos qualquer comunicação.

 

À tarde caiu morto na trincheira de um pátio fronteiro à tipografia do “Quinze de Novembro” o valoroso Alferes do 31° de Infantaria, Vicente de Azevedo.

 

Pela seteira por onde atirava nutridamente sobre o inimigo, alojado naquela tipografia, entrou a bala que, ferindo-o no nariz e testa, prostrou-o instantaneamente morto.

 

O Alferes Vicente, um dos mais ilustrados e distintos oficias do 31° Batalhão e estimadíssimo por seus camaradas e comandantes estava para contrair núpcias com uma distinta jovem de nossa melhor sociedade, cujo desgosto foi tal, que até hoje seus dias estão em perigo.

 

O fogo dos inimigos vae pouco a pouco cessando. Ao escurecer, a fuzilaria dos assaltantes emudece.

 

Nesse dia a artilharia fez muitos disparos.

 

Às 10 horas da noite recomeçou novamente a força contrária a fazer contínuas descargas para dentro da praça.

 

A guarnição, firme em seus postos, recebeu ordem do Coronel comandante para não responder ao fogo; despeitado por esta demonstração de pouco caso, o inimigo redobrou de esforços, lançando sobre nós uma verdadeira saraivada de projetis.

 

Na madrugada do dia 25, as trincheiras começaram a responder ao fogo dos sitiantes. Pela manhã a artilharia fez vários disparos.

 

Às 8 horas, uma família que debaixo de balas conseguiu chegar à praça, trouxe notícia de que na cidade o saque prosseguia desenfreadamente e sem embaraços.

 

Da torre da matriz as nossas sentinela viram e noticiaram que muitas forças inimigas, abandonando o acampamento do Quebraxinho, passavam em direção ao Pirahysinho.

 

Há três dias hoje que a heroica guarnição de Bagé, auxiliada pelo Partido Republicano em armas, oferece brilhante e viva resistência aos atacantes que ousaram vir sitiá-la, talvez contando, esses bandidos, com uma capitulação imediata.

 

Mas a guarnição prefere morrer à fome a render-se aos inimigos da Ordem e do Progresso desta terra. A guarnição está firmemente resolvida a não ser prisioneira dos bárbaros degoladores do Rio Negro!

 

Às 11 ½ horas do dia o inimigo fez uma tentativa de assalto, atacando os muros das casas da praça que fazem fundos à rua General Osório. Esses muros, defendidos pelos valente corpo ao mando do Tenente-coronel Corrêa, Força do Major Cândido Bueno e contingente do Corpo de Transporte, foram reforçados por uma força deste último e romperam gravidíssimo fogo contra os assaltantes, que desistiram da tentativa.

 

Poucos momentos antes o Coronel Telles tinha mandado uma Força de infantaria desalojar o inimigo que se entrincheirara na tipografia doQuinze de Novembro”, à rua General Osório.

 

Do encontro renhido das duas forças, resultou a perda de seis inimigos, entre os quais um Alferes, no bolso de cuja blusa foram encontradas as duas notas seguintes, uma dos nomes de republicanos que deviam ser degolados, e outra das casas que deviam ser saqueadas. Os nomes eram:

 

Tenente-coronel Manoel Corrêa dos Santos;

                   Capitão Manoel de Vargas;

                   Major Cândido Bueno;

Tenente-coronel Cândido Garcia, Acácio Garcia e

Tenente-coronel Lupi, mortos no Rio Negro;

                  Dois irmãos Monteiro, de D. Pedrito e as

                  Casas dos Srs. Luiz Cantera;

                  Paschoal Boero;

                  Antonio N. R. Magalhães;

                 José e Pantaleão de Llano;

                 José Lopes Villamil.

 

Na mesma nota havia mais cinco nomes sem designação, escritos a lápis e de letra ininteligível e já apagada. Apenas pudemos ler o nome de Serafim.

 

Fomos informados, e esta notícia corria com insistência, que muitos oficias dos bandidos traziam em listas os nomes dos republicanos contra quem havia ordem de degola, por parte dos chefes.

 

Durante o dia continuou o fogo para o interior da praça, cessando ao escurecer, e recomeçando com intensidade às 10 horas da noite, prolongando-se durante todo o dia de 26.

 

As forças que defendiam a praça, sempre que achavam favorável ensejo e que podiam recolher resultado, respondiam; à fuzilaria inimiga.

 

Nas ambulâncias estabelecidas na igreja matriz e numa casa contigua à arrecadação do 4° Regimento de Artilharia, os feridos apresentavam sensíveis melhoras, sendo de momento a momento visitados carinhosamente pelos dois ilustres e dedicados facultativos Drs. Lybio Vinhas e Carnaúba, que com a maior solicitude empregavam todo o esforço para conservar os preciosos dias dos servidores da República.

 

O fogo durava há quatro dias e quatro noites consecutivas e, no entanto, a guarnição não sofreu um único instante de desânimo.

 

No dia 26, pela manhã, os inimigos fizeram uma pomposa exibição de suas forças, fazendo-as passar em coluna cerrada do acampamento do Quebraxinho para o do Pirahysinho e conduzindo imensas cavalhadas. Calculamos que passassem uns 3.000 homens.

 

À tarde foi ferido na boca, por uma bala, o distinto 1° Tenente de Artilharia Alfredo Rodrigues Pires.

 

A população de Bagé assistiu, dolorosamente assombrada, à 1 hora da noite desse dia, ao espetáculo mais horrivelmente desolador que é possível conceber-se, e que constitui a nota característica e expressiva dos sentimentos e intuitos dos bandidos da revolução.

 

A horda de incendiados, em desespero de causa, irritada pela insuperável resistência que lhes oferecíamos, lançou fogo a diversas casas, com o duplo intento de satisfazer os seus desejos de destruição e de apavorar-nos em face de tão hedionda malvadez.

 

Volutas enormes de fumo negro subiam aos ares empanando o brilho das estrelas e os rubros clarões do incêndio lambiam o espaço, tingindo todos os objetos de uma luz sanguinolenta e sinistra.

 

Os madeiros estalavam, os vidros derretiam-se, de espaço a espaço soavam medonhas detonações, acompanhadas do fragor violento do incêndio e do calor esbraseante que, apesar da distância, chegava-nos ao rosto.

 

Nessa noite o fogo foi ateado nos seguintes edifícios, que ficaram completamente reduzidos a cinzas: magnífica residência do nosso amigo Dr. Bernardino de Senna Costa Feitosa, juiz de direito da comarca, e cuja construção importou em 20 contos de réis; o vasto armazém e loja de fazendas do negociante José Pinto de Montes Sarmento, à rua 7 de Setembro, e o sobrado à rua General Osório, onde funcionava a secretaria do 4° Regimento de Artilharia.

 

Mulheres e crianças, abandonando precipitadamente os leitos onde repousavam os fatigados corpos, corriam espavoridas pelas ruas em altos gritos e buscando refúgio na praça; os bandidos, aproveitando o terror espalhado pelos incêndios, arrombavam portas, tentavam atear novos focos de destruição e saqueavam quanto podiam. [Continua] A FEDERAÇÃO N° 44.

 

 

 

 

 

Bibliografia:

 

A FEDERAÇÃO N° 44. História do Sítio de Bagé ‒ Brasil ‒ Porto Alegre, RS ‒ A Federação n° 44, 21.02.1894.

 

Solicito Publicação

 

(*) Hiram Reis e Silva é Canoeiro, Coronel de Engenharia, Analista de Sistemas, Professor, Palestrante, Historiador, Escritor e Colunista;

 

·    Campeão do II Circuito de Canoagem do Mato Grosso do Sul (1989)

·    Ex-Professor do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA);

·    Ex-Pesquisador do Departamento de Educação e Cultura do Exército (DECEx);

·    Ex-Presidente do Instituto dos Docentes do Magistério Militar – RS (IDMM – RS);

·    Ex-Membro do 4° Grupamento de Engenharia do Comando Militar do Sul (CMS)

·    Presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS);

·    Membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil – RS (AHIMTB – RS);

·    Membro do Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul (IHTRGS – RS);

·    Membro da Academia de Letras do Estado de Rondônia (ACLER – RO)

·    Membro da Academia Vilhenense de Letras (AVL – RO);

·    Comendador da Academia Maçônica de Letras do Rio Grande do Sul (AMLERS)

·    Colaborador Emérito da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG).

·    Colaborador Emérito da Liga de Defesa Nacional (LDN).

·    E-mail: hiramrsilva@gmail.com.

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