Quinta-feira, 9 de novembro de 2023 - 11h47
Recordar
é o verbo que mais mistura neurônios e sinapses com artérias e veias, como se
os interligados, cérebro e coração, vibrassem juntos no instante de acionar o
botão da memória, estendendo suas influências aos sentidos do corpo, fazendo
tremer um músculo, uma pálpebra e, na maioria das vezes, desenrolando um tapete
macio, para que uma ou várias lágrimas desfilem, rugas abaixo, entremeadas por
um tímido sorriso ou por contrações faciais de choro.
Na concepção de pseudocientistas, como eu, é o coração que
manda recados ao cérebro, pressionando a vida com arritmias conexas, com as
boas ou más lembranças. O pulsar forte do coração faz parecer ser dele a ação
de recordar para viver ou reviver, mas a gente sabe que o cérebro é a placa
mãe que comanda as inversões do olhar, forçando a volta ao passado,
glorioso ou não, ao menos para apontar quais caminhos não deveriam ser escolhidos,
na difícil travessia da existência.
É
agradável recordar bons momentos, relembrar velhos mestres, boas amizades. Histórias
da adolescência são as mais instigantes, pois que inseridas no período mágico
do ginásio, quando as risadas eram mais francas, as amizades mais sinceras, as
palavras mais verdadeiras, os folguedos mais animados e as travessuras!?
Inesquecíveis!!! Muito se perdeu no percurso, daí porque é importante registrar
o que ainda está no córtex cerebral, ratificando parte da história da minha
vida.
Passei
cinco anos no Ginásio Marista Sagrado Coração de Jesus, na cidade de Senhor do
Bonfim-BA, contando com o curso de admissão ao ginásio, entrei com dez anos.
Vivi histórias incríveis, conheci professores inesquecíveis, o mais marcante
deles era português, mas formou-se em matemática na França, chamado pelos
colegas de irmão Oliveira, mas alcunhado, carinhosamente, por todos os alunos
como irmão Bolinha, devido ao avantajado do corpo e da cabeça redonda, quase
careca. Branco avermelhado de sol, devia ter 1,80 m de altura por 1,00 m de
largura de tão gordo que era. Um homem de bem com a vida, não lembro um único
dia em que o vi de mau humor. O apelido não o desgostou, acabou entranhado no
corpo e na mente, acredito que ele mesmo se reconhecia no espelho mais como
Bolinha do que como Oliveira.
Irmão
Bolinha era o responsável pelo pomar, granja, horta, pocilga, colmeia, algumas
cabeças de gado leiteiro e pela manutenção da quadra e dos dois campos de
futebol, ambos gramados, sendo um oficial e outro menor para os alunos mais
jovens. Para tanto, comandava alguns serviçais e alunos internos.
Excelente
professor, considerado um gênio da matemática, mas o que mais ele gostava de
fazer era inventar máquinas, modificar motores para irrigação, consertar os veículos
da instituição. A máquina para trançar arame para as cercas da granja e da
pocilga, ele a inventou num piscar de olhos.
Considerado
pelo diretor como a alegria da garotada, era o responsável pelos apetrechos dos
esportes: bolas, redes, raquetes, tudo referente a esportes ou a autorização
para frequentar o pomar, era ele que dava, não sem antes limitar a quantidade
de garotos e recomendar cuidado ao subir em árvores, além de pedir para que
conservassem a farda sempre limpa, tarefa das mais difíceis – calça curta ou
longa, com suspensórios ou cinto, confeccionada em brim cáqui e camisa branca
de tricoline com o escudo do ginásio bordado no bolso, além de sapatos e meias
pretos.
Não me
lembro da quantidade de missas que assisti, nem do volume de hóstias
consumidas, sei que davam pra erguer uma ponte entre o céu e a terra,
infelizmente o místico/metafórico trigo não forneceu uma liga forte, a ponte
caiu quando ingressei na universidade e tive acesso às discussões dos Concílios
de Nicéia, às ideias de Bertrand Russel, Marx, Nietsche e tantos outros, virei agnóstico.
Ainda
havia, no ginásio, a banda de músicas, a fanfarra, o coral, as feiras culturais
e de trabalhos manuais, as demonstrações de diálogos em francês, latim e grego,
a mexer com o emocional dos alunos, mas nada foi mais forte, em se tratando de
emoção, do que o dia em que o irmão Bolinha teve um infarto fulminante, caiu
entre as árvores e os animais, dos quais tratava com tanto gosto e carinho. Foi
uma espécie de golpe baixo da divindade, afinal era ele quem melhor cuidava das
crianças, a verdadeira matéria prima de Marcellino Champagnat, padre francês que fundou a congregação dos Irmãos Maristas:
“Que haja entre vocês um só coração e um só espírito!”
Difícil
encontrar um aluno que não estivesse com o semblante triste, era como se
estivéssemos perdendo um membro da família, um paizão que nos recebia sempre
com um sorriso nos lábios, um homem santo que pronunciava a palavra “não” e a
garotada entendia, como se fosse um “sim”.
Ninguém
o contestava, era dele a solução de toda e qualquer equação, principalmente as
do relacionamento humano, como se vocábulos e números estivessem no mesmo patamar.
Foi dele a última palavra, evaporada das flores que circulavam a sua face
tranquila, no silêncio do ataúde, cujo significados místico e mítico penetraram
e permanecem até hoje, no interior de cada um dos seus pupilos.
Devo
ao irmão Bolinha a expressão pela qual os amigos e confrades, hoje, me
caracterizam parte da existência: - William é o agnóstico mais cristão que
conheço!!! Nem tanto! o
amai-vos uns aos outros, como eu vos amei continua infernizando minha
razão, deixando a certeza de que guerras, especialmente as de fundo religioso,
atitudes racistas, distâncias sociais, egocentrismo, ódio, fome e tantas outras
atividades castradoras de ideias, vontades, opiniões, são partes inerentes do humano!
Jamais os homens assimilarão, com o coração, o amor ao próximo ou a gênese
divina, salvo raríssimas exceções. Viemos do inexpressivo pó, evoluímos, mas a
ele retornaremos, insignificantes, até o dia em que a IA assumir o comando, aí
será uma nova história, o fim do místico, a vitória da matéria.
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