Sábado, 21 de março de 2026 - 08h15

Eu
tinha doze a treze anos. Não mais; - quando minha mãe, declarou, em derradeiro
dia de julho, com largo e bom sorriso, bailando nos finos lábios encarnados:
vermelhos e acetinados como cerejas:
-
" Este ano vamos passar o mês de agosto a Trás – os - Montes...
A
imaginação infantil excitou-se - pelos meus olhos de criança, logo surgiu a
pastoril e singela aldeia de minha mãe, esbraseada de sol acariciador, sob o
bom e cálido manto azul, do Vale da Vilariça.
Nessa
noite - que me pareceu eterna, - percorri as macadamizadas ruas da aconchegante
povoação, aninhada nas fraldas da serra de Bornes.
Vi
- como vi! - As cacarejantes galinhas, à mistura com pachorrentos marrecos,
cevados e esqueléticos cachorros, que livremente circulam pelas calçadas,
cobertas de morenas palhinhas, morenas como a gente e o pobre centeio, que
vegeta pelas serras.
Vi a desmedida pá do forno comunitário,
colhendo das encandecestes brasas, pães redondinhos, estaladiços, saborosos e
fumegantes.
Na
manhã seguinte parti no ronceiro comboio do Douro, junto à janela, para melhor
observar o rio, que, após a Régua, se atravessava a vau.
Em
Vila Flor, a Flor das Vilas, como dizia Raul de Sá Correia, o “Rossas"
levou-nos, em velha viatura, até à “Quinta do Bem”, onde o prestável feitor,
festivamente, nos acomodou.
Pouco
depois conheci o Nero. Cãozarrão, guarda da quinta, que após meiga carícia, se
afeiçoou a mim.
Sempre
que passeava pelo negro asfalto da estrada ou me embrenhava pelos matagais, em
vales e montes, o Nero acompanhava-me.
Abandonara,
de todo, a obrigação de guarda da Quinta; e era feliz, ladeando me, e dormindo
a sesta, estirado no esfregado soalho.
Certa
ocasião ao atravessar olival, e não querendo sujar-me – para não ouvir minha
mãe, – deitei-me sobre o pobre animal. Alguém viu, e tirou uma fotografia.
Clarisse
Barata Sanches, conhecida como "A poetisa de Góis”, teve conhecimento, e
publicou poema no: " Varzeense", acompanhada de foto.
Tenho
oitenta e tal anos, mas guardo com saudade, o recorte da gazeta.
Ainda
me recordo do amigo Nero, que na hora da despedida: gemeu, chorou, uivou de
saudade...
Como
seria sua vida após a minha partida?
Os
cães também têm sentimentos: também, amam, gemem e choram...
Sexta-feira, 10 de abril de 2026 | Porto Velho (RO)
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