Segunda-feira, 14 de outubro de 2013 - 20h16
Professor Nazareno*
O dia 15 de outubro por aqui é dedicado aos professores. Um dia miserável e até amaldiçoado para quem escolheu uma das profissões mais ingratas do Brasil: como ensinar alguma coisa num país onde as pessoas não querem aprender? Penúltimo lugar numa pesquisa feita em Londres sobre a valorização dos docentes, o Brasil amarga a triste rotina de conviver a cada dia que passa com um déficit cada vez maior de profissionais nesta área em que todos são hipocritamente unânimes em afirmar: “é a profissão mais importante na vida de qualquer ser humano”. Talvez a carreira profissional mais desvalorizada da atualidade, ser professor no nosso país é um desafio que persegue a rotina dos “poucos heróis” que tiveram a coragem suficiente de enfrentar a família para se aventurarem numa vida sem futuro e pouco rentável.
Suportar calado esta horrorosa data é uma desgraça, uma espécie de Armagedon para qualquer professor. Quando não é obrigado a trabalhar em seu próprio dia, os docentes muitas vezes têm que aturar festinhas estúpidas de seus alunos que, cheios de boas intenções, presenteiam seus homenageados com balinhas, doces, refrigerantes e outras guloseimas açucaradas, parece até que de propósito, já que fingem não perceber que a maioria de seus mestres está com as taxas de diabetes, colesterol e triglicerídeos lá pelas alturas. Mas o raciocínio é simples e até macabro: se não matar os condenados, faz muitos deles adoecerem e por isso, “ganham de presente” vários dias sem aulas. Há muito tempo que professor não ganha presentes de seus alunos a não ser murro na cara, deboche, desdém, ameaça dos pais, diretores e toda a sorte de violência e intimidações.
Mas quem perde com isso não são somente os docentes, é a própria sociedade e o país inteiro. O Brasil tem um dos piores sistemas de educação em todo o mundo. Nunca valorizamos o saber e só somos a sétima economia graças à produção de commodities e não de conhecimentos. Esse negócio de que o professor é o único profissional que forma todos os outros profissionais é pura balela, papo furado, hipocrisia da sociedade. Se assim fosse, seríamos bem mais valorizados e teríamos um salário de médico, de jogador de futebol ou de político. Porém a culpa não é só do Governo ou do Poder Público. A sociedade até incentiva esta desvalorização: ninguém cobra nem exige nada em beneficio da educação nem dos educadores. Nas greves, apanhamos da polícia e às vezes, na sala de aula, dos alunos. Somos a escória nacional.
Neste triste dia, políticos e autoridades vão à mídia para se confraternizar com os educadores. Só hipocrisia e enganação. Na telinha, tecem loas e mentiras falando sobre a “importância do educador” e outras lorotas apenas para enganar os eleitores otários, pois muitas vezes não querem que seus próprios filhos sigam a “honrosa profissão”. De fato, no Brasil menos de dois por cento dos alunos querem ser professor enquanto que na Coréia do Sul, China, Finlândia ou Japão esse número ultrapassa os 90%. Aqui, quando um aluno diz que quer seguir esta carreira é logo taxado de louco, idiota ou imbecil. Sem salários dignos, sem motivação, sem esperanças, humilhados, estressados e já depressivos, muitos educadores são perseguidos até pelos próprios sindicatos da categoria. Uma sociedade que não valoriza a educação e nem o professor deveria ser sincera e ter pelo menos vergonha de comemorar esse maldito dia dedicado a ele.
*É Professor em Porto Velho.
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