Quinta-feira, 2 de abril de 2026 - 09h40

Em 2001
tivemos as torres gêmeas nos EUA, o terrorismo com desfecho trágico, para o
mundo, e o início do discurso de intervenção militar em outros países: em
seguida vimos o Iraque e o resultado catastrófico para o seu povo, a destruição
do país e a mentira do discurso “vamos levar a democracia” se estabelecer como
pré-requisito para a destruição do Oriente Médio.
Aliás,
depois da Síria, agora temos o Irã: no Iraque eram as armas químicas (de fato,
foram usadas contra os curdos, mas na invasão pelos EUA já não existiam) e no
Irã a desculpa é o enriquecimento de urânio. O objetivo imediato, como sabemos,
é o petróleo. A logística, a médio prazo, visa atingir a economia chinesa – um
Império está ruindo e outro está surgindo. O alvo sempre foi a China.
Foi naquele contexto de 2001 que
defendi a tese de doutorado na FEUSP, tomando “a ideia de rede” por objeto, sob a orientação da professora Maria Victoria de Mesquita Benevides.
Em 2001, as assim chamadas redes sociais, como temos hoje, não existiam, nem
seus arremedos – por isso, era só uma ideia de rede. O que tínhamos e
cultivávamos como um alento era o princípio ativo, a própria ideia e alguns
experimentos que a internet já permitia, por meio de sites ou blogs, além da
experiência promissora, revolucionária, dos zapatistas em Chiapas, no México
dos anos 1990.
O
fenômeno se imortalizou, difundiu-se globalmente, em processo de adaptação e de
aprimoramento (conhecimento) da própria forma de comunicação que se avizinhava.
Toni Negri apelidou de Multidão, com poucos cliques e muita gente reunida em
praça pública lutando por isonomia, equidade, justiça social, paridade. Não sei
se falaram para ele ou se inventou a expressão Multidão, no entanto, é o
fenômeno social precursor das Primaveras Árabes e o exato oposto das guerras
híbridas e de suas revoluções coloridas: padecemos disso no Golpe de 2016.
O autor daquele final de século XX até
2001, de quando escapamos do Bug do milênio, era Pierre Lévy: ninguém lia a
Estrada do futuro (1995) de Bill Gates. Que me lembre, Lévy não virou filme,
mas era extremamente popular entre os jovens. A Cibercultura (1997) era seu
sonho. A realidade, que se modificaria absurdamente poucos anos depois, se
mostrou apenas como “O que é o Virtual” (1996), isto é, uma ideia, uma
possibilidade que não teve capacidade, nem potência: virtus, virtualis.
A
educação que ainda líamos falava um pouco disso, como os 7 saberes que
interessam ao futuro (Morin), sem sabermos que o futuro era presente,
faltando-lhe apenas saltar à frente da porta: não era Educação digital, como se
propaga em 2026, era Educação com ciência e, portanto, com consciência. Ninguém
faz ciência, efetivamente, sem consciência do que faz, para o que faz, com quem
faz, como e onde faz. Simplesmente porque ciência é o princípio e o resultado
de uma forma específica de se pensar (e agir) e tem muito mais a ver com conteúdo
do que com forma, com metodologias herdadas do Renascimento, do estranhamento
social, engessadas num passo a passo que nos diz o que fazer e como: ciência
não é precisão, é crítica e criação; é solução prática e lógica, coerente,
condizente, mas é, acima de tudo, a ação do incidental, da aleatoriedade.
Outros
autores chamam isso de Serendipidade, Morin dizia da urgência de atender à
Educação que se incline ao “pensamento científico sobre o conhecimento
científico”. Isso é consciência, pensar cientificamente (e isso é óbvio) é
pensar criticamente. Não é por acaso que o Paulo Freire de A pedagogia do
oprimido nos ensina que “consciência é a consciência da consciência”.
Esse
era mais ou menos aquele mundo, a luta pela Educação da ciência e da
consciência. Não se falava como hoje, em termos de educação financeira, ensino
religioso e escola cívico-militar. Tudo isso é o antípoda da liberdade, da
autonomia, da emancipação, do sentido elementar de práxis. Essa guinada não
ocorre por acaso, ao contrário, precisa ser tida como eixo da fase atual do
sistema capitalista: a educação financeira cabe hoje porque há hegemonia do
capital financeiro e especulativo (bancos, bolsa de valores, fintechs) e porque
o neoliberalismo nos presenteou com a uberização e sua meia irmã chamada de
pejotização. O que nos traz de volta para o coração desse breve século XXI, que
é a digitalização da vida social.
Ninguém
está imune ao colonialismo digital, pois o digital ocupou até mesmo o espaço
real, sensível, passível de ser especulado por meio dos cinco sentidos. Se o
virtual era o complemento do real, e Lévy nos convidava a ler o Tao të King a
fim de entendermos o virtual (potência), hoje, o digital – ainda mais com o
avanço da Inteligência Artificial (IA) – é o próprio real: por exemplo, não é
possível garantir com fé pública as imagens enviadas da guerra Irã x EUA/Israel,
tudo ou quase tudo é manipulado (ou escondido pela mídia tradicional).
A
ideia de rede se mostrou a que veio, porém, deturpando-se, apropriando-se do
mundo real, degradando-se a história de luta, denúncia e de resistência ao
capital (desde Chiapas), e se impondo como parte essencial da hegemonia do
Capitalismo digital: Bets, Big techs, Big datas/Data centers. É nesse miolo,
que ainda conta com os bancos/fintechs, que se impõe a Educação financeira,
pois, aí está a hegemonia do capital e a forma mais sutil de captura das
subjetividades humanas. O que equivale a dizer que é o avesso do sentido
elementar preconizado para a emancipação, visto que esta é obrigatoriamente
social, libertária; porém, é o reino do capital especulativo, do mundo sem
rédeas de moderação, em que prospera apenas a autonomia do “cada um faz o que
quer” (sic) e a capacidade de especular sobre tudo: as redes antissociais estão
repletas de doutores sobre o nada, de antivax, de apóstolos da destruição do
conhecimento, da lógica e da coerência, da epistemologia.
Efetivamente,
de lá para cá, de quando escrevi e defendi a tese “A rede dos cidadãos” para
2026, em que a IA desconhece qualquer noção mínima de responsabilidade, sendo a
própria antinomia da honestidade intelectual, muito mudou e muito mais irá
mudar. Antigamente, falávamos da mutação, e antes disso Kafka praticamente
inventou a Metamorfose, mas hoje temos que buscar outras conexões, inclusive
substituindo-se o sentido de conexão, havida na ideia de rede, pela desconexão
atual, afastamento, estranhamento, antipatia social. Se antes se cuidava da
inclusão, em 2026, com folgas do saber acumulado nessas duas décadas, pode-se dizer
que ocorre o oposto, que é a exclusão, o banimento, o que vigora: é o reino da
exceção.
Se
começamos, lá em 2001, a ver o decréscimo do panóptico, hoje, temos na tela do
celular – e nas hegemônicas redes antissociais – o império do banótico, das
bolhas; se a ideia de rede criava o ativismo social digital (Multidão nas ruas,
ocupando-se do espaço público), hoje vige o “servilismo voluntário” (desde La
Boetie e de Bauman). Junto com o final do analógico também se foi a sensação da
realidade e veio a fluorescência do Tecnofascismo.
Ainda
é tempo, mas temos que querer e fazer, reflexão e ação (práxis) como a gente
dizia feliz e sorrindo.
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