Sexta-feira, 13 de março de 2026 - 11h48

Por que a
educação é um projeto sempre adiado?
Porque
não há um projeto de país (tipo Getúlio Vargas ou JK) e, mais do que isso,
porque é um projeto político baseado na dominação por meio da menoridade
intelectual, moral, científica, política.
Não
é sequer um projeto iluminista (com os devidos acertos de conta), e muito menos
a educação no Brasil é um projeto emancipatório. É dominação com alienação (às
vezes só ignorância e ocultismo, como se vê em São Paulo). É dominus com lastro
na Abdução social[1].
Desse
prisma, é o exato oposto de Paulo Freire[2], quando propôs a
associação entre liberdade, autonomia, responsabilidade e emancipação
social.
Em
resumo, é um projeto de "dominus" - que é uma relação mantida estreitamente
com a propriedade privada. Portanto, não ocorre à toa essa imposição da educação
financeira, em oposição às humanidades.
A
subjugação ao capital dominante, hegemônico, faz-se no dia a dia, lição após
lição. É desse modo que a educação brasileira prepara as crianças para a
captura de suas subjetividades pelo capital financeiro.
A
ementa a seguir foi gerada por IA, com uma simples questão, e confirma o que
estamos alegando: “ementa da disciplina de educação financeira em São Paulo”:
· “A disciplina de
Educação Financeira na rede pública de SP (incluída no currículo a partir de
2024, especialmente no ensino integral) visa desenvolver hábitos de consumo
consciente, planejamento, poupança e investimentos. O foco é a cidadania
financeira, abordando matemática financeira (juros, inflação) e comportamento,
com foco na autonomia”.
Abaixo,
os conteúdos expostos também refletem a mesma IA:
· “Entre os assuntos que
podem ser contextualizados com as informações sobre educação financeira
destacam-se: previdência social, sistema financeiro, crescimento
econômico do país, empreendedorismo, endividamento e muitos
outros”.
Facilmente,
deve-se intuir que a “previdência social” é tida como déficit, prejuízo,
investimento sem retorno e, por conseguinte, deve sofrer “correções”. O que não
se diz é que as tais correções sempre afetam negativamente a classe
trabalhadora, mitigando ou retirando direitos assegurados. O que também não
recebe pronúncia é o fato de que a corrupção do sistema público muito pouco é
investigada, bem como seguem imunes a evasão e a sonegação fiscal, além da
corrupção na iniciativa privada, a partir da “privatização do aparato público”.
A fantasia do Estado como “mão invisível”, no Brasil, tem uma aparência
diferente: em decorrência de sua privatização, o Estado trata como invisíveis
os mais pobres e marginalizados pelo sistema político e econômico.
É
curioso colocar o sistema financeiro no coração da educação de crianças e de
jovens, porque, claramente, está sub-reptícia a lógica de que todos/as poderão
ser acionistas da Bolsa de Valores. Mesmo os mais pobres têm direito à ilusão
do mercado, a sonhar com a prosperidade milionária, bilionária, e não é
coincidência o fato de igrejas voltados ao domínio terem o mesmo mantra. É um
projeto de dominação com fundo falso, onde se esconde o cinismo.
O
PIB – produto interno bruto –, se bem investigado, revelaria que 30% é
decorrente do agronegócio. Sem contar que a geração de empregos e de renda é
nula – em face de sua mecanização, robotização –, além da inestimável poluição
e degradação ambiental, o agronegócio segue sendo o farol dos problemas mais
graves dos bancos públicos. Conhecido por ser o maior financiador do agro, o
Banco do Brasil tem registrado calotes insuperáveis desse setor que privatiza e
drena recursos públicos. São calotes históricos.
Quando
o que mais cresce no país é desregulamentação do trabalho, com uberização e
pejotização, soa a outro cinismo falar de empreendedorismo. Sem contar os
milhares, milhões de pobres e descarregados de qualquer poder econômico, é
preciso ter clareza de que a uberização e a pejotização (pontas de lança do
trabalho informal) são os principais fatores responsáveis pela crise na
previdência social. A razão é simples e óbvia: a cada dia menos pessoas
contribuem para a previdência social, porque a cada dia mais pessoas são uberizadas,
fagocitadas pelo desregulado sistema produtivo.
O
último item, por sua vez, parece uma piada. Seria muito interessante indagar a
qualquer gestor/a público/a – patrocinador da educação financeira – se ele/a,
vivendo com um salário mínimo, não estaria endividado/a até à próxima geração.
É uma piada de péssimo gosto pensar que se pode educar financeiramente pessoas
endividadas porque ganham um salário mínimo. Quantas pessoas no Brasil ganham
um salário mínimo por mês?
Por
essas e por outras razões, bem previsíveis, como dizia Darcy Ribeiro, “a
educação não está em crise, pois isso é um projeto”. É um projeto de dominus
baseado na negação do conhecimento de forma geral e, de modo específico, está
calcado na negação do “domínio do conhecimento social”, sociológico, uma vez
que a crítica provém da análise dos fatos e dos fatores e é isso que conduz à
práxis, isto é, ação social, cultural, política com efetividade de mudança
social.
Não
é só por isso, mas também é por isso que o conhecimento é revolucionário, à
medida em que nos move para revolver as raízes mais profundas dos males
sociais, culturais, políticos, econômicos.
Por fim, é por tudo isso que a educação não combina com a “conversa para boi dormir”.
[1] https://www.gentedeopiniao.com.br/politica/vinicio-carrilho/abducao-social-educar-pelo-pensamento. Acesso em 12/03/2026.
[2] FREIRE,
Paulo. Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2022.
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