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Gente de Opinião

Vinício Carrilho

Escola Cívico-Militar


Escola Cívico-Militar - Gente de Opinião

        Desde a Guerra do Paraguai – e antes dela –, todas as vezes em que os militares estiveram na cena nacional as consequências foram terríveis e são sentidas até hoje – quem sabe por quanto ainda até nos livrarmos desses escombros sombrios.

Temos uma história recheada de violência, corrupção, tortura e mortes. Não há um sinal de grandeza em nada do que os militares fizeram, desde, sobretudo, a Guerra do Paraguai – assassinando milhares de crianças, mulheres, idosos, pobres, no país vizinho.

      O evento funesto mais próximo é o afamado 8 de Janeiro de 2023. Numa tentativa de golpe fascista, os chamados “pés pretos” (forças especiais, selecionadas dentro da tropa) estavam lá, na organização, na logística, no butim que se seguiu em Brasília, junto aos três poderes.

          A partir de 1964, vimos os piores dias do país, com mais sequestros, mortes, violência, sadismo extremado – que, aliás, pelo nível doentio nem podemos descrever aqui.

         Em 2018, o Fascismo Nacional chegou ao poder no Planalto Central. Com o lema “Deus, Pátria, Família”, invocava a marcha que trouxe o “golpe cívico-militar” em 1964 e sustentou os chamados Atos Institucionais, um golpe dentro do outro, um golpe atrás do outro. O lema em 1964 era: “Marcha da família com Deus pela liberdade”. Troque liberdade por propriedade e está tudo ok.

         O Deus da época era outro, era católico, hoje é neopentecostal, mas num ramo bem específico. Até a algum tempo rezavam os salmos da Teologia da Prosperidade, enriquecer rezando, porém, de um pouco pra cá passaram a entoar cânticos da Teologia do Domínio – e o santo do milagre é aquele mesmo Rei Davi: bastante brutal, inclusive contra os “amigos”. Então, o percurso agora é a dominação.

        Na essência, se acharmos algo como o Clerical-fascismo, da Itália de Mussolini (amigo de Hitler, o pior facínora da história humana), não será mera coincidência, mas sim total semelhança.

           Por que falamos disso?

         Porque o poder ungido em 2018 tinha a patente de capitão (sic). E com ele foram ungidos outras personagens de estirpe clerical e militar – tudo já na esteira da Teologia do Domínio.

          As formas de dominação, na lição clássica da Sociologia, são: dominação tradicional, dominação carismática, dominação racional-legal. Nosso eterno e reverenciado patriarcalismo, machismo misógino, tem enquadro na dominação tradicional. Nossos beatos e comerciantes da fé (alguns associados ao tráfico internacional de drogas) creem em seu “carisma” para domesticar, dominar e, acima de tudo, lucrar com a fé alheia. E desde 1988, notadamente, com a Constituição Federal de 1988, conhecemos (ao menos em desenho institucional) a dominação legitimada democraticamente.

        Por tudo isso, e por muito mais, é preciso dizer NÃO a esse projeto de Escola cívico-militar. Não é possível que militares, criados sob esses lemas e “consciências” venham a organizar, gerir escolas públicas.

Para ficarmos com outro exemplo, bastaria perguntar como é que soldados da Polícia Militar de São Paulo vão ensinar Ética às crianças e aos jovens, se são criados para festejar as mortes ocorridas no massacre de 500 presos no Carandiru - se são especialistas em atirar especialmente contra jovens negros e pobres das periferias?

          Nossas escolas devem ser laicas, dirigidas por profissionais da educação, nossos conteúdos devem passar pela ciência, pela crítica social, pelos Direitos Humanos, pela emancipação e pelo conhecimento ético e científico. Jamais deveríamos estar discutindo isso: militares treinados sob o símbolo da morte ensinando ética.

        Não se trata apenas de falta de noção, de lógica, mas, sobretudo, trata-se de imoralidade. É imoral se pensarmos que a ordem democrática não será, nunca será, mantida com “ordem unida”. Ordem democrática e ordem unida são repelentes.

         Tanto são repelentes quanto devemos repelir as ações de escola cívico-militar.

         Houve um tempo, mais do que sombrio, em que a escola pública ensinava Educação moral e cívica...pois bem, na esteira do conteúdo militar reinante, hoje bem sabemos o quanto era uma educação imoral e cínica.

* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela "OPINIÃO", que é exclusiva do autor.

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