Segunda-feira, 2 de junho de 2008 - 09h34
MONTEZUMA CRUZ
Agência Amazônia
GUAJARÁ-MIRIM, RO – Nas paredes do escritório do bispo diocesano dom Geraldo Verdier, 70 anos, vêem-se fotos dele numa audiência com o Papa João Paulo II; do primeiro bispo prelado, dom Francisco Xavier Rey; e um pequeno quadro de madeira com a imagem do líder pacifista Mahatma Ghandi. Em oito de dezembro de 2007 a Igreja Católica completou 75 anos de presença no Vale do Guaporé. A Prelazia de Guajará-Mirim durou de 1932 a 1980. Da biblioteca de sua casa, dom Geraldo retira um exemplar do livro Força de Leão, coração de criança, escrito pela professora Adriana Caravita e pelo bispo dom Luiz Gomes de Arruda, o dom Roberto (frade franciscano entre 1965 e 1978). "Aí está um pouco da nossa história", diz.
O Papa Pio XI confiou ao monsenhor Xavier Rey uma das missões mais duras do mundo, conforme suas próprias palavras. O prelado tornou-se o personagem mais conhecido no Vale do Guaporé, fronteiriço à Bolívia. Com entusiasmo e coragem impressionantes, Pierre Élie Rey (nome de batismo), nascido na aldeia de Fauch, na França,
bispo diocesano dom Geraldo Verdier/MC |
contatou índios, construiu igrejas, e promoveu um sistemático trabalho evangelizador. Subiu e desceu os rios Mamoré, Guaporé e seus afluentes.
Antes de dom Rey, a região habitada apenas por índios e seringueiros era visitada por dom Luís Maria Galibert, bispo de São Luís de Cáceres (MT). Foi outro personagem da Igreja que chegou em Pimenteiras com o frei francisco Berardo e um jovem chamado Manoel. Eles se aproximaram dos índios Pau Cerne, que assistiam às missas com curiosidade e comentavam os detalhes da celebração.
Obras na selva
Na edição de dois de fevereiro de 1952 da revista O Cruzeiro, o jornalista Jorge Ferreira escreveu: "Ali vai Dom Rey...Não há quem não o conheça e não existe quem, conhecendo-o, não o admire. Católicos e ateus, protestantes e comunistas, céticos e indiferentes têm em Dom Rey um amigo e um conselheiro, um irmão e um apoio, uma palavra de fé e de conforto. E se tu precisares de algumas dessas coisas, ou de outras mais, bate à sua porta. Ele partilhará contigo o seu pão, o seu vinho e a sua cama. E mais do que isso, te entregará a sua alma e o seu coração".
Além da Catedral de Nossa Senhora do Seringueiro, entre os templos construídos por dom Rey estão os das comunidades do Iata e Vila Murtinho. Colaborou nas obras o sobrinho dele, padre Armando José Rey.
Marthas e Marias
A história da Igreja na região se escreve a partir de 1º de março de 1929 (ano da quebra da Bolsa de Nova Iorque), quando a Santa Sé emitiu a bula Animarum Cura, do Papa Pio XI, "para a catequese dos índios e dos seringueiros". No entanto, dom Rey, o primeiro prelado, só assumiria o cargo em 25 de janeiro de 1932. Dois dias antes, ele desembarcava da lancha Horto Barbosa, junto com o padre Francisco Maria Herail e o frei Teófilo Arcambal, franciscanos da Terceira Ordem Regular.
Dom Rey criou 33 escolas no Vale do Guaporé. Em 1933, fundou em Guajará-Mirim o Colégio Santa Terezinha, com Emília Bringel Guerra, Dona Pretinha, mãe da Irmã Maria Emília. A escola, entregue aos cuidados das irmãs Calvarianas: Martha do Calvário e São Rafael, francesas; Martha de Jesus, irlandesa; Maria Agostinho e Maria Antonieta, paulistas. Agostinho morreu de hepatite seis meses após a sua chegada em Guajará. A escola teve o nome mudado para Colégio Nossa Senhora do Calvário.
Em 1946 o bispo fundou o Hospital Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, entregue dez anos depois ao Governo do Território Federal do Guaporé, quando se transformou em Hospital Regional. No mesmo ano, dom Rey lançou os alicerces da Catedral de Nossa Senhora do Seringueiro, onde repousam seus ossos.
Daniel Rops, da Academia Francesa de Letras, escreveu o artigo "O bispo sem batina", no qual revela um incomum dom Rey, "admirado, amado e respeitado por todos".
Amigos de verdade
dos Pakaas-novos
GUAJARÁ-MIRIM, RO – "Se hoje reclamamos do estado de saúde dos índios, das dificuldades de transporte e de outras situações, imagine o que ocorria aqui há quase meio século", comenta dom Geraldo.Em 1961, Dom Rey encabeçou o movimento de aproximação com os índios Oro-Wari (Pakaas-novas). Delegou ao frei Luiz Gomes de Arruda, o dom Roberto a incumbência de permanecer na floresta do Rio Negro-Ocaia, até conseguir o contato. Seis meses depois, a missão obteve êxito.
O Serviço de Proteção ao Índio (SPI), que antecedeu a Funai, proibira a entrada de pessoas da Prelazia em áreas indígenas. Para uma boa recuperação, os tuberculosos tinham que se sujeitar a um tratamento mais prolongado. Houve epidemias e os doentes pediram socorro.
O pequeno hospital da cidade não comportava os doentes. Numa sala da Prelazia, sobre uma lona estendida no chão, acomodaram-se 42 doentes – homens, mulheres e crianças.
Enfim, a saúde
Em 1965, o SPI continuou negando autorização para a Prelazia instalar um posto de atendimento de saúde numa das reservas indígenas. Dom Rey não admitiu que os índios ficassem doentes, famintos e morressem. Adquiriu um terreno na foz do Rio Guaporé com o Rio Mamoré e a cinco quilômetros da margem direita, sob a orientação do frei Roberto, 20 índios faziam nascer em território boliviano um povoado e uma entidade denominada Grupo de Recuperação do Elemento Humano, mais tarde conhecida por Colônia Sagarana.
Os índios abriram roças e construíram casas. Gostaram do lugar, se adaptaram bem e ali ficaram. Sagarana cresceu e reúne hoje cerca de 60 famílias. Tem administração própria e o posto de saúde com enfermeiros próprios e cursos, cuja autorização fora negada em 1965. Soldados da borracha nordestinos fizeram crescer os seringais amazônicos, mas viveram na miséria no meio da selva. A abertura de estradas pôs fim a muitos seringais e agora os remanescentes do período áureo da borracha vem conseguindo sobreviver.
Atualmente, os seringueiros que permanecem dentro das reservas extrativistas estão se organizando em busca de projetos alternativos de sustentabilidade. Dom Rey morreu no Hospital de Base, em Porto Velho, aos 82 anos, em 1984. No leito, olhou para dom Geraldo, que na época tinha barba. E disse: "Essa barba lhe dá respeitabilidade".
Sucessão desafiou Dom Geraldo
GUAJARÁ-MIRIM – Dom Rey semeou e seus sucessores fizeram germinar a semente de uma Igreja comprometida com o social. Recém-chegado à Terceira Ordem Franciscana, o então padre Geraldo Verdier visitou pela primeira vez o Vale do Guaporé aos 28 anos de idade, em 1966.
Nos anos 1970 lia à noite sob luz de vela, porque a energia fornecida por uma usina termelétrica era desligada às 22h. "A Missão Franciscana na Amazônia enfrentou de tudo um pouco e habituou-se às dificuldades", resigna-se. Até 1975 sucederam-se as viagens do missionário. Dom Geraldo recorda-se da mãe, Julieta Verdier, que morreu aos 92 anos: "Ela me disse que chorava todas as vezes em que eu vinha para o Brasil".
Terra inóspita
A Europa entendia a Amazônia como terra inóspita. Médicos franceses o advertiram, porque ele sofria com a dilatação de brônquios. Dom Rey encorajou-o. Geraldo foi eleito vigário capitular (administrador) da Prelazia de Guajará Mirim em oito de dezembro de 1978. "Conheci a região em apenas um mês e meio, mas a minha nomeação contrariou todas as expectativas. Perguntaram: outro estrangeiro?".
O então núncio apostólico brasileiro, dom Carmine Rocco, convocou-o quando havia nomeado bispos para dioceses do Pará e o Paraná. A decisão sobre Rondônia demorava. Os superiores só nomeariam para o cargo alguém que correspondesse ao trabalho feito pelos antecessores. Missionário nato descendente de índios Guaicurus, dom Roberto fora prelado coadjutor de dom Rey, nomeado pela Santa Sé em 1964, com direito à sucessão. Ordenado bispo prelado em agosto de 1966, coube-lhe a criação das comunidades eclesiais de base e a participação na criação do Conselho Indigenista Missionário.
primeiro bispo prelado, dom Francisco Xavier Rey/M.CRUZ |
O legado de dom Roberto
Em oito de dezembro de 1978 dom Roberto renunciou à administração da Prelazia e se tornou missionário animador das comunidades da nova região de Colorado do Oeste. Depois de alguns anos lá, foi morar entre os Pakaas-novas da Colônia Sagarana, onde se dedicou ao estudo e à transcrição das lendas e mitos daquele povo.
Morreu aos 89 anos, em seis de dezembro de 2003. Além de um minucioso dicionário, deixou preciosos relatos sobre lendas e mitos dos Pakaas-nova, digitados num computador com painel solar. Os índios enfeitaram o seu corpo e cantaram. Foi sepultado em Sagarana.
Logo, dom Geraldo teria de encarar o desafio. É o que vem fazendo até hoje. A escolha só se consolidaria em seis de agosto de 1980, depois da exclusão de uma lista tríplice apresentada à Nunciatura."Eu me vi projetado a bispo com apenas cinco padres", lembra.
Fonte: Montezuma Cruz - Agênciaamazônia é parceira do Gentedeopinião
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