A Agência Amazônia inicia mais uma "Séries de especiais", que mostram ser possível conservar a biodiversidade usando técnicas simples e de bons resultados. São muitas Amazônias dentro desses 5 milhões de quilômetros quadrados que representam 60% do território brasileiro. Visitamos um pedacinho deles para mostrar aos nossos leitores Coisas do Acre e Uma nova Amazônia, séries que trarão outras, mais à frente.
MONTEZUMA CRUZ
Agência Amazônia SENA MADUREIRA, AC — As galinhas que saem das canoas e lanchas "voadeiras" são levadas ao comércio da cidade por empregados de
colonheiros (colonos) ou por eles próprios. No Acre, colônia é
colonha – sítio, roça, pequena fazenda. "Elas botam mais ovos, chocam debaixo das árvores e têm carne mais saborosa, porque são criadas livremente. O quintal delas é esse aí", comenta Esmeraldo Rosa, 37, apontando a floresta.
Ao desembarcar no meio do barro, na margem direita do rio Caeté, a cerca de 140 quilômetros de Rio Branco, ele já sabe que receberá R$ 30 pelas três galinhas bem nutridas que transportou durante uma hora e meia de viagem. "As que não trazemos
pro abate, botam bastante, e botam à vontade. É bem diferente desse jeito de criar o bicho na cidade", vai falando Esmeraldo, antes de subir o barranco e alcançar uma velha Kombi que o espera no alto da ponte.
"Esse jeito" ao qual o sitiante se refere resume-se ao fato de as granjas forçarem as galinhas a pôr ovos ininterruptamente, o que lhes acarreta uma enorme perda de cálcio. Galinhas de granja não recebem tratamento veterinário individualizado e pelo menos 30% sofrem fratura óssea; a criação na floresta elimina esse problema, conforme a
Agência Amazônia presenciou na Reserva Extrativista Cazumbá-Iracema, onde elas não comem ração industrial, convivem com macacos, porcos, tatus, cachorros e uma imensidão de insetos.
A fartura na criação de galinhas na microrregião é visível na beira-rio e na feira. Superando até mesmo a pecuária (cerca de 100 mil cabeças), que há 30 anos ocupou antigos seringais acreanos, o plantel de galinhas passa das 150 mil unidades. Ganha também dos suínos (15 mil). Aves de corte e poedeiras movimentam pelo menos R$ 300 mil na economia regional.
Antônio Marcílio de Jesus, 46,
colonheiro morador a meia hora de "voadeira", no rio Iaco, vem a Sena de 15 em 15 dias. Às vezes traz entre seis e dez galinhas. "Mas já vim com menos, uma delas, só com uma. Tenho muitas amizades na cidade", relata.
Segundo o IBGE, na microrregião de Sena Madureira (região do Purus), que é o terceiro município do estado, vivem pouco mais de 45 mil pessoas distribuídas entre esse município e os vizinhos Manoel Urbano e Santa Rosa do Purus. A maioria é constituída por nordestinos ou seus descendentes.
Os
colonheiros dispensam os tradicionais galinheiros de madeira, preferindo deixar as aves soltas e com livre arbítrio para subir nos galhos mais baixos da floresta da região do Alto Acre. No período chuvoso, eles ficam impedidos de usar os ramais, daí, o transporte das galinhas ser feito pelos rios. Ramais são estradas de acesso às colonhas, o mesmo que vicinais.
O comércio de Sena Madureira vende a maioria de produtos comprados em Manaus (AM) e Belém (PA), que chegam de balsa, a um custo mais barato que o transporte rodoviário e repetindo o passado: as casas aviadoras dessas capitais também abasteciam os seringais, por rios e igarapés.
Satisfeito ao receber este mês uma comitiva de jornalistas brasileiros e representantes da Embaixada da Alemanha em Brasília, este mês, o prefeito Nilson Areal (PR) ouviu do conselheiro Michael Grewe um resumo das intenções do Programa de Cooperação que contempla o Acre e os demais estados amazônicos. Não chegou a discutir a inserção de agências alemãs no controle do aquecimento solar, nem precisou falar da qualidade das galinhas criadas no mato. O próprio Grewe viu a cena numa visita à reserva extrativista e também presenciou o desembarque de algumas, na beira do rio Caetés, perto da ponte inaugurada em 2008.
Mandioca, uma riqueza
O prefeito preferiu destacar o potencial agrícola e até energético da região, lembrando que a população está esperançosa na consolidação da região como pólo produtor de mandioca de variedades reconhecidas pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). Estudos da Secretaria de Produção do município vão avaliar as principais variedades das raízes, qualidade do amido e o reaproveitamento da manipueira (líquido leitoso da mandioca), que vem sendo jogado a céu aberto nas casas de farinha, o que caracteriza um enorme desperdício.
"A mandioca é uma cultura amazônica que vem sendo redescoberta, pelo menos aqui. Ela pode ser cultivada sem a necessidade de derrubar a floresta. É ou não é uma opção agrícola viável? Em nossa região, isso pode ser uma realidade", ele salienta. Com média entre 14 e 15 toneladas por hectare, Sena poderá alcançar até 40 t - três vezes a média nacional - se aplicar boa tecnologia ao solo, prevê Areal. Daí se justifica a expectativa da região em relação aos recursos do Orçamento Geral da União deste ano para a extensão dos serviços da Embrapa-AC aos vales do Purus e Juruá.
Autor de uma emenda individual de R$ 5,8 milhões, o deputado Fernando Melo (PT-AC) se tornou um dos mais fortes parceiros da instituição para a instalação de um centro de tecnologia da mandioca em Rio Branco. "Vai dar certo e esta região terá condições até mesmo de produzir etanol de mandioca", prevê o parlamentar. Ele enumera as principais razões: 1) pela necessidade de diversificação de alimentos, com o uso da raiz da mandioca; 2) pela necessidade de produzir ração animal e etanol com microdestilarias, a custos sociais, para o atendimento a regiões isoladas; 3) para evitar o desperdício da manipueira (água da mandioca), muito comum nos vales do Purus e do Juruá.
Melhores espécies
A equipe do pesquisador da Embrapa Amauri Siviero estuda o desenvolvimento da mandioca na região desde 1998. Segundo Siviero, o sistema de produção ainda é rústico, com baixo uso de tecnologia - insumos, mecanização agrícola e controle de pragas. "As lavouras são implantadas em áreas de capoeiras de até um hectare após a derrubada e queima da floresta voltando a ser utilizadas cerca de cinco anos após duas colheitas", ele explica.
As áreas de cultivo localizam-se em terra firme. Ali predomina a solteira, denominada lavoura branca. "Eventualmente a mandioca é consorciada com espécies anuais, entre elas o milho. A Embrapa vem testando e recomendado há dez anos as cultivares Panati e Araçá, boas para farinha de mandioca e conseqüentemente indicadas para o cultivo na microrregião do Alto Purus. A cultivar Araçá foi substituída por agricultores localizados no Rio Yaco a jusante do município, onde a extensão rural e a assistência técnica são mais atuantes.
Na Resex predominam cultivares com alto teor de ácido cianídrico (HCN), denominadas bravas. Segundo Siviero, elas se destinam à produção de farinha, destacando-se a cultivar Pirarucu, um dos xodós do secretário municipal Joaquim Moisés. Em menor área são cultivadas macaxeiras indicadas a Colonial e a Caipora. A segunda pertence ao grupo das mandiocas tipo Manteguinha com polpa de cor amarela e cozimento rápido, conforme Siviero descreveu em 2005. Por enquanto, o uso das macaxeiras é estritamente para consumo na propriedade. O excedente destina-se à fabricação de farinha ou goma.
Para quem já recebeu apoio da Fundação Banco do Brasil, na instalação de dezenas de casas de farinha e agora terá recursos do Orçamento da União para a difusão tecnológica e o consórcio da mandioca com frutíferas, até que um empurrão financeiro alemão viria em boa hora. A Cooperação Alemã se dedicará agora ao apoio às alternativas que evitam mais emissões de carbono na atmosfera. Poderá contar com a sintonia de Sena? O tempo dirá.
Este é o município de Sena
▪ "Vou para Sena, vim de Sena". Assim falam os senenses nascidos na cidade ou nos antigos seringais da região.
▪ Área 25.296,7 Km2, equivalendo a 61,97% da região e 16,52% da área total do Estado.
▪ População 22,8 mil habitantes (47% rural e 53% urbana).
▪ Fundado em 25 de setembro de 1904, o município já foi sede do Governo do Estado. Foi fundado em 25 de setembro de 1904, por Siqueira de Menezes. Obteve sua autonomia pelo Decreto Federal nº 9.831, de 23 de outubro de 1.912.
▪ Faz fronteira com o Peru, divisa com o Estado do Amazonas e com os municípios de Manuel Urbano, Santa Rosa, Bujari, Rio Branco, Assis Brasil, Xapuri e Brasiléia.
▪ Localiza-se às margens do Rio Iaco, cujos principais afluentes são os rios Macauã e Caeté. Tem acesso terrestre pela BR-364 à capital, Rio Branco (a 140 Km), e Manuel Urbano (74 Km).
▪ Por transporte fluvial a viagem até Rio Branco é feita pelo rio Purus, passando por Boca do Acre no Amazonas. Percorre-se o rio Acre até a capital.
Fonte: Montezuma Cruz - A Agênciaamazônia é parceira do Gentedeopiniao e do Opinião Tv.