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Montezuma Cruz

Jagunços são presos nas glebas da cobiça


UMA RARIDADE: POLÍCIA PRENDE PISTOLEIROS EM JI-PARANÁ.  E A PREPOTÊNCIA DO INCRA PREVALECE

MONTEZUMA CRUZ
montezuma@agenciaamazonia.com.br

BRASÍLIA — A violência tirou o sossego dos posseiros das glebas G e Urupá. Eles apanhavam de cassetete e levavam tiros em tocaias armadas por jagunços, na mata ou nos quintais de suas casas. A Polícia Federal decidiu tomar a frente das investigações e prendeu três pistoleiros: Antônio Francisco Alencar, o Cherém, Roberto da Silva, e Osvaldo Almeida de Oliveira. Benigno, Geraldo Soldado e Lourenço eram outros jagunços cuja fama corria o Território Federal de Rondônia, embora a polícia hesitasse em capturá-los. 
Na CP
Jagunços são presos nas glebas da cobiça - Gente de Opinião
Nos anos 70, Vila Rondônia, hoje, Ji-Paraná, vivia à mercê da violência e das promessas do Incra /PREFEITURA
I da Terra de 1977 ficou registrado que o Incra e as colonizadoras particulares não cumpriam a promessa feita aos posseiros, de abrir estradas, construir pontes e balsas. Esse mundo ilusório frustrou-os e só se concretizou depois da transformação do território em estado, quando o governo federal constatou que a população aumentava. Assim, começou a liberar recursos para essa finalidade.

O deputado Jerônimo Santana (MDB-RO) fez incluir no relatório a ação do jaguncismo em Ji-Paraná (ex-Vila Rondônia), Presidente Médici, Nova Vida, Muqui e Jaru. A perseguição angustiou os posseiros da Fazenda Itapirema, às margens do Rio Urupá. Quem ficou na região, enfrentou a ferro e a fogo o poder do latifúndio. Muitos não suportaram, abandonaram seus ranchos e sumiram.
Entre os municípios de Ariquemes e Jaru, cerca de 300 famílias atrapalhavam empresários vindos de São Paulo para investir na compra de terras devolutas em Rondônia. No antigo Seringal Nova Vida, espancamentos e mortes sensibilizaram os parlamentares da Amazônia. Na época, eles viviam em sintonia na busca de encontrar caminhos para fazer a reforma agrária.
Os irmãos Arantes se tornaram os novos donos de Nova Vida, conseguindo estender a sua influência a mais de 300 mil hectares. Para tanto, juntaram ao patrimônio outra área de terras conhecida por Milagres.
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Margens do Rio Machado: jaguncismo agia com a conivência policial antes e depois da CPI da Terra /IBGE
Dois anos depois da CPI, em agosto de 1979, a situação se agravava. Pistoleiros atingiram Alcedino e Aristeu Lucindo com balas de revólver 38. Esses irmãos posseiros morreram lutando em defesa de seus lotes, onde haviam feito derrubadas e plantado suas lavouras de milho, arroz, feijão  e mandioca. Deixaram viúvas e filhos menores.
O Grupo Arantes, de São Paulo, que havia chegado a Rondônia em 1973, atualmente é proprietário do maior laboratório de genética bovina da Amazônia Ocidental. Naquelas terras por onde hoje desfilam vacas e touros de alta linhagem travou-se uma luta sangrenta pela terra. 
Prepotência
A prepotência do Incra encarnava mesmo a concepção de órgão militarizado. No entanto, seus dirigentes desprezavam sublimes lições da caserna, agindo com desnecessária truculência contra posseiros ainda desmobilizados. Contavam-se nos dedos os advogados que aceitavam mover ações judiciais a favor deles.
No cargo de coordenador regional, em 1979 o amazonense Bernardes Martins Lindoso –  irmão do então senador José Lindoso (Arena-AM) – não via inconvenientes em ordenar despejos à força. “Vamos colocar para fora esses posseiros da Gleba Prosperidade, na hora que bem entendermos, do jeito que fizemos no Seringal Muqui”, proclamava.
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Rochilmer Rocha: diretor de A Tribuna e hoje conselheiro do Tribunal de Contas: jornal visado /TCE-R0

Com os sem-terra ele agia assim. Com a imprensa, fazia boicote econômico, ordenando o corte de anúncios ou publicação de editais em A Tribuna , diário que publicava reportagens sobre a falta de recursos em alguns projetos fundiários e de colonização — Rolim de Moura e Paulo Assis Ribeiro (em Vilhena) entre eles. Lindoso entregava aos órgãos de informação os nomes dos jornalistas e donos de jornais.
Emoção no Palácio
Roupas simples, um dos perseguidos pelos jagunços do fazendeiro José Milton de Andrade Rios viajou de ônibus para Porto Velho e se hospedou num hotel próximo à velha Estação Rodoviária. Havia aberto uma área de terras no Seringal Muqui a mando do próprio Incra. Figurava na pré-seleção de futuros assentados e ainda tinha esperança em ser dono do seu chão.
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Teixeirão emocionou-se com relato de posseiro / M.CRUZ
Não conseguia curar as feridas. Vira os jagunços sacudiram 40 sacos de arroz colhidos por seu sogro e outros 7 colonos. Vira o incêndio de um cafezal, a destruição do engenho de cana-a-de-açúcar e dos cabos de enxada. Não houve reação.
Três anos depois da CPI, o mineiro Amilton Inácio de Oliveira, 41 anos, emocionava o governador do Território Federal de Rondônia, coronel Jorge Teixeira de Oliveira, o Teixeirão. Durante um encontro com o delegado da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag), João Maia, no Palácio Presidente Vargas, o posseiro arrancou do bolso uma velha foto na qual apareciam seus quatro filhos, perto de um rancho. Três haviam morrido de malária e de hepatite. 

 

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