Terça-feira, 11 de maio de 2021 - 20h38

Em época de pandemia tudo fica mais difícil, mas principalmente para o idoso. Depois de uma quarentena cruel e monótona, o idoso já se encontra no seu limite físico e mental. Sente dores em todos os músculos e articulações. As artroses e artrites quase os matam. A mente entediada começa a dar sinais germânicos do Alzheimer. Mas, como está no grupo de risco, tem a gloria de ser do grupo prioritário. E assim consegue tomar a primeira dose. Porém, em que pese a sua satisfação pessoal, na realidade, tudo continua igual: tem que continuar no isolamento social, usar álcool em gel, tomar os polivitamínicos e ferro todos os dias. Mas, finalmente, sua esposa também idosa, claudicante e cheia de limitações articulares, chega com a notícia:
--- Oriovaldo, vamos levantar bem cedo amanhã pois é o dia da nossa segunda dose. Finalmente, ficaremos imunes ao corona.
Às 5 horas da manhã o casal de idosos se levanta, e se prepara para sair tomando apenas um café às pressas, pois a fila deverá ser longa!
Ao chegar no local, a fila já dobrava o quarteirão. Os velhinhos, velhotes e velhões, todos com máscaras e conversando animadamente como se fossem receber a senha para o céu! Alguns com os olhares indecisos, perdidos, a maioria de óculos escuros, bengalas ou cadeiras de rodas, mas sempre bem falantes e claudicantes. Uma visão interessante não fosse trágica! Ter que passar por mais essa no declínio de toda uma existência!...
Mas o pior ainda estava para vir para o seu Oriovaldo e sua esposa!
---O senhor vai nos desculpar, seu Oriovaldo, porém a vacina acabou!!!
(*) Médico, poeta, contista e músico
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