Sábado, 10 de dezembro de 2022 - 12h33
Sou boa na farofa, me garanto. Aliás, minhas
comidinhas são bem boas - inclusive sempre foram - bem temperadas, tudo muito
natural. Quem provou, aprova. O segredo é curtir gostoso o momento da mistura,
a criatividade dos envolvidos. O momento da entrada de cada um, remexidos.
Nossa, como ouvimos falar de farofa essa semana! Eram os ecos de uma
festa lá no Ceará e que ainda não entendo bem se é festa, se é festival, se é
só zoeira, e que zoeira! Se é jogada de marketing, vitrine digital, uma
animada, rica e safada festinha de aniversário. Ou, sei lá, se é tendência sair
juntando tudo quanto é influencer e jogá-los juntos para ver se procriam com
tantos hormônios e apelos sexuais. É like pra lá, like pra cá, like beija
coraçãozinho, coraçãoozinho faz live contando detalhes, mesmo os que rolaram no
tal quarto escuro, que essa moçada só descobriu agora. Mas que o dessa farofa
aí deve ter sido bem decorado, e sem cheiros, preciso lembrar que grudam,
sempre terríveis. Imagino seguranças à porta tentando conter o uso dos
celulares, agora parte do corpo dessa geração. Cabeça, corpo, membros, celular.
Sobre a dona da festa, Gessica Kayane Rocha de Vasconcelos, que por
motivos óbvios se encarnou como Gkay, até agora não consegui chegar a qualquer
conclusão definitiva. Uma parte de mim se impressiona com ela e a sua
capacidade de aparecer; a outra não gosta do humor, da voz, do tom, não conheço
todos os apitos que toca.
Enfim lembrei muito da farofa, esta, da Gkay, que competiu – e ganhou
quilômetros de espaços - até contra jogos da Copa, formação de novo governo, e
a minha. A minha memorável farofa, nunca igual a outra; nem conseguiria.
Demorei muito tempo para me habilitar na culinária. Minha mãe, que
nasceu e teve infância lá na cidade de Formiga, em Minas Gerais, então uma
cidade de roça, pequenina, diferente do que me parece hoje, já acoplada à
região metropolitana de Belo Horizonte, me afastava de qualquer tentativa. Pois
bem, na sua infância lá na década de 30 do século passado, uma amiga foi
brincar perto do fogão a lenha, a panela fervente caiu sobre ela e aí vocês já
imaginam a sequência que a traumatizou durante toda a vida, como outros tantos
traumas que a levaram, assim que pode, bem pra longe dali para nunca mais
querer voltar. Dessa forma, passei pelo menos mais de 40 anos de minha vida com
mamãe cercando mais o fogão do que o nosso goleiro cercou a rede. Com mamãe não
sairíamos da Copa. Era marcação cerrada.
Isso só mudou quando ela começou a ficar doente, um pouco mais
dependente e, pasmem, começou a adorar as coisas que eu fazia. Esses anos
distantes do fogão não foram em vão: aprendia. A observava. E uma coisa
acabamos tendo em comum. Nada de receita, vamos fazendo o que o coração manda,
com o que tem por perto, tudo cortado na hora. Meu irmão odeia que eu diga
isso: mas também não tenho o costume de provar antes. Gosto desse jogo
arriscado (tá bom, ok, errei poucas vezes, servi um chabu, mas tudo bem porque,
como acabamos de ver e tomar na cabeça, nem sempre a vitória é garantida).
Fora tudo isso, o duplo sentido usado aqui e ali, no fundo agora escrevo
sobre o medo, esse sentir que nos estilhaça e muitas vezes detém por muito
tempo. A farofa-festa mostrou, ao contrário, uma diversidade e até
sem-vergonhice de encher os olhos, seja como for, o que dá esperança que essa
geração que chega seja ainda mais ousada do que nós que abrimos a clareira.
Quanto à minha farofa... como disse, tem mais. As minhas comidinhas
sempre foram muito boas. Pelo menos teve muitos que gostaram. Talvez ainda
gostem. Vamos em frente.
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MARLI GONÇALVES – Jornalista, consultora de comunicação, editora do
Chumbo Gordo, autora de Feminismo no Cotidiano - Bom para mulheres. E para
homens também, pela Editora Contexto. (Na Editora e na Amazon). marligo@uol.com.br
/ marli@brickmann.com.br
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