Domingo, 21 de abril de 2013 - 12h15
A democracia inclui falar tudo o que se quer, mas que não ofenda o bom senso. Neste bom senso, inclui-se a integridade dos outros, a inteligência média e, evidentemente, a negação à apologia ao crime, além de se investir na perspectiva dos direitos humanos e da ética social. Minha avó me ensinou que “quem fala o que quer, ouve o que não quer” - e muitas vezes paga que não fez. Pois bem, este é o bom senso que podemos extrair do senso comum. Nem sempre é possível perceber o bom senso com tanta clareza, dadas as filigranas que podem recobrir um determinado problema; porém, em alguns casos o senso comum é uma trilha segura.
No caso do deputado Marco Feliciano, do PSC, presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados, o bom senso foi prejudicado; além de provocar vergonha em muitos protestantes equilibrados, esclarecidos e que não apoiam sua apologia ao crime. É crime no Brasil o racismo e a homofobia, portanto, o deputado, escondido na imunidade parlamentar, agrava suas condições. Não fosse pela imunidade descabida, porque comete crimes comuns, já estaria em cana. Quem poderá dizer que os negros são filhos de cão e nada sofrer? Falseou propositalmente ao não escrever Kã e ainda fez uma leitura ao pé da letra para afirmar que os negros são impuros. Isto é um horror! É uma afirmação bestial. Quem ainda não sabe que a vida humana, inteligente, nasceu na África? Agora, o deputado diz que Raul Gil é o Satanás. Tudo bem que o programa é muito ruim, mas daí a elevá-lo até El Diablo é demais. Para mim, o pai do deputado trabalhava na rodoviária como carregador de malas – e ele vinha no colo.
Prometo que não volto a escrever sobre o nobre deputado, até porque já recebeu atenção demais. No fundo, deveria mesmo ser investigado pelos crimes de racismo, homofobia e apologia ao crime. Aproveito que estamos na era da criminalização de tudo, como se fôssemos resolver todos os graves problemas pelo primo pobre do direito (direito penal), e proponho que, além da quebra do decoro parlamentar, seja crime inafiançável a “quebra do bom senso”. O parlamentar, em qualquer nível de poder, deveria ser condenado a nunca mais receber nosso voto. O problema é esse, apesar de ser um crime indescritível, inesquecível, a quebra de bom senso precisa de uma vigilância incomum (quase que sanitária) para que o bestial nunca mais viesse a receber nosso voto.
Não é o caso, não é? O deputado Feliciano recebeu mais de 200 mil votos. Desculpem a pobreza do trocadilho, mas enquanto ele é Feliciano, nossa inteligência é ofendida e assim ficamos muito tristonhos. Feliciano e suas ofensas e deseducação – porque não temos o direito de falar o que pensamos – é apenas mais uma prova de que vivemos uma democracia racista e não racial, como creem alguns mais ingênuos.
Vinício Carrilho Martinez
Professor Adjunto III da Universidade Federal de Rondônia - UFRO
Departamento de Ciências Jurídicas/DCJ
Pós-Doutor pela UNESP/SP
Doutor pela Universidade de São Paulo
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