Segunda-feira, 23 de dezembro de 2024 | Porto Velho (RO)

×
Gente de Opinião

Hiram Reis e Silva

Terceira Margem – Parte DXXXV - Bonfim – AC 01, 01.09.2018


Rio Tacutu - Gente de Opinião
Rio Tacutu

Bagé, 16.01.2023


O RIO

(João Cabral de Melo Neto)

Os Rios que eu encontro vão seguindo comigo, Rios são de água pouca, em que a água sempre está por um fio.
Cortados no verão que faz secar todos os Rios.
Rios todos com nome e que abraço como a amigos.
Uns com nome de gente, outros com nome de bicho, uns
com nome de santo, muitos só com apelido.

Acordamos por volta das 06h00, e nos dirigimos ao local de partida, felizmente o Policial Federal solicita­mente abriu o portão que nos permitia acessar a mar­gem esquerda do Rio Tacutu. Feitos os devidos ajustes no “Argo I” despedi-me daquela altaneira tropa que tão gentilmente me apoiou. O dia estava claro e o Sol ainda não surgira no horizonte. O Rio Tacutu (Itacutu para os guianenses) escorria sua torrente preguiçosa e langui­damente pelos tortuosos labirintos formados pelos enormes bancos de areia.

Na Foz do Rio Arraias, avistei um pescador e cumprimentei-o e o carrancudo homem, que recolhia frustrado a sua rede, não respondeu minha saudação, imediatamente lembrei-me do livro sagrado (Lucas V, 1-7) que relata a difícil jornada de Pedro, Tiago e João que, durante toda a noite, lançaram suas redes no mar da Galileia sem alcançar o sucesso esperado. Por volta das 08h34, avistei um bando de tuiuiús (Jabiru mycteria) onde um grande macho pavoneava-se para uma das fêmeas.

O macho com as asas abertas realizava uma elaborada dança ritualística, típica desta espécie, em torno da fêmea ao mesmo tempo em que batia ruidosamente seu longo e robusto bico, a fêmea acompanhava, com certo recato, a evolução sem abrir as asas. A excitação que antecipa a cópula aumenta a irrigação sanguínea e a pele vermelha do papo do macho torna-se intensamente rubra.

Pelas 10h00, uma Pata Brava (Cairina moscha­ta) que me espreitava sorrateiramente, de longe, por trás de um tronco de uma palmeira, de repente, ela abandonou o esconderijo dissimuladamente e desfilou pelo banco de areia ostensivamente para se mostrar e entrou rapidamente n’água passando a apresentar um comportamento bastante estranho batendo as asas, sem alçar voo, como se estivesse lesionada, aproximando-se, às vezes, do caiaque sem qualquer receio com o intuito de me levar a persegui-la, com o fito de me afastar daquele tronco seco.

Por mais de uma vez assisti a comportamentos semelhantes, nas plagas gaúchas, quando os pais (patos, marrecas) tentavam me afastar do seu ninho. Desembarquei no banco de areia de onde a mamãe pata partira, segui suas pegadas pela areia e avistei camuflado entre a vegetação o objeto de sua dissimulação um ninho com mais de 16 ovos de cor branco azulada. Confirmada minha expectativa, deixei a mamãe pata em paz e prossegui minha solitária viagem. Às 11h10, logo depois de deixar o Igarapé do Caju à margem esquerda do Tacutu e o Rio Maú à direita passei pela ponte da BR-401 que liga Conceição do Maú à Normandia, mantendo uma média horária de 9,3 km/h nestes 40 km percorridos em 04h23.

Fiz uma única parada, de 30 minutos, às 12h00, para ingerir algum alimento e espichar as pernas. O braço doía um pouco, principalmente durante este breve repouso. Tinha muita dificuldade em levantar o abraço, mas como minha remada é baixa a dor era suportável. Os prognósticos para esta jornada não tinham sido nada alvissareiros, as relações numéricas o braço com movimentos limitados, o fim de minha contratação como Prestador de Tarefa por Tempo Certo (PTTC) em 31.12.2018 pelo Exército Brasileiro, as dívi­das com a esposa internada há 15 anos se acumulan­do... Acho que tudo isto abalou meu lado emocional que em consequência afetou o físico.

Às 16h30, parei e montei a Acampamento 1 (AC 01 – 03°27’49,84” N / 60°08’47,46” O) em uma bela e extensa praia, à margem direita. Carreguei as tralhas para o local onde montaria a barraca, tomei um banho morno, e na hora de montar a barraca é que senti muita dificuldade, meu braço direito realmente doía muito. Tive de arrastar o caiaque para a terra usando apenas o braço esquerdo. Tinha remado 77 KM em 09h10 (8,4 km/h). Dormi cedo.

Total 1° Dia ‒ Ponte Tacutu / AC 01 =       77,0 km

 


 

(*) Hiram Reis e Silva é Canoeiro, Coronel de Engenharia, Analista de Sistemas, Professor, Palestrante, Historiador, Escritor e Colunista;

 

Campeão do II Circuito de Canoagem do Mato Grosso do Sul (1989)

Ex-Professor do Colégio Militar de Porto Alegre (CMPA);

Ex-Pesquisador do Departamento de Educação e Cultura do Exército (DECEx);

Ex-Presidente do Instituto dos Docentes do Magistério Militar – RS (IDMM – RS);

Ex-Membro do 4° Grupamento de Engenharia do Comando Militar do Sul (CMS)

Presidente da Sociedade de Amigos da Amazônia Brasileira (SAMBRAS);

Membro da Academia de História Militar Terrestre do Brasil – RS (AHIMTB – RS);

Membro do Instituto de História e Tradições do Rio Grande do Sul (IHTRGS – RS);

Membro da Academia de Letras do Estado de Rondônia (ACLER – RO)

Membro da Academia Vilhenense de Letras (AVL – RO);

Comendador da Academia Maçônica de Letras do Rio Grande do Sul (AMLERS)

Colaborador Emérito da Associação dos Diplomados da Escola Superior de Guerra (ADESG).

Colaborador Emérito da Liga de Defesa Nacional (LDN).

E-mail: hiramrsilva@gmail.com.

Galeria de Imagens

  • Rio Tacutu
    Rio Tacutu
  • Rio Tacutu
    Rio Tacutu
  • Rio Tacutu
    Rio Tacutu
  • Rio Tacutu
    Rio Tacutu
  • Rio Tacutu
    Rio Tacutu

* O conteúdo opinativo acima é de inteira responsabilidade do colaborador e titular desta coluna. O Portal Gente de Opinião não tem responsabilidade legal pela "OPINIÃO", que é exclusiva do autor.

Gente de OpiniãoSegunda-feira, 23 de dezembro de 2024 | Porto Velho (RO)

VOCÊ PODE GOSTAR

Qualquer Semelhança não é Mera Coincidência – X

Qualquer Semelhança não é Mera Coincidência – X

Bagé, 20.12.2024 Continuando engarupado na memória:  Tribuna da Imprensa n° 3.184, Rio, RJSexta-feira, 25.10.1963 Sindicâncias do Sequestro dão e

Qualquer Semelhança não é Mera Coincidência – VI

Qualquer Semelhança não é Mera Coincidência – VI

Silva, Bagé, 11.12.2024 Continuando engarupado na memória:  Jornal do Brasil n° 224, Rio de Janeiro, RJ Quarta-feira, 25.09.1963 Lei das Selvas  T

Qualquer Semelhança não é Mera Coincidência – IV

Qualquer Semelhança não é Mera Coincidência – IV

Bagé, 06.12.2024 Continuando engarupado na memória:  Jornal do Brasil n° 186, Rio de Janeiro, RJSábado, 10.08.1963 Lacerda diz na CPI que Pressõessã

Qualquer Semelhança não é Mera Coincidência – III

Qualquer Semelhança não é Mera Coincidência – III

Bagé, 02.12.2024 Continuando engarupado na memória:  Jornal do Brasil n° 177, Rio de Janeiro, RJQuarta-feira, 31.07.1963 JB na Mira  O jornalista H

Gente de Opinião Segunda-feira, 23 de dezembro de 2024 | Porto Velho (RO)