Domingo, 16 de março de 2025 - 13h40
Deixe- me apresentar a você, caro leitor, esta personagem
que vive, há décadas, no interior do meu cérebro, e mistura suas memórias às
minhas como se tivéssemos intimidade para tanto: não temos. Aliás, somos bem
diferentes. Sequer parecemos a mesma pessoa, exceto por um hábito que se tornou
uma obsessão: colecionar palavras.
Refiro-me a uma
criança que, durante seu processo de alfabetização, apaixonou-se perdidamente
pelos sons das letras, das sílabas e das palavras, claro. A partir de então,
passou a acumular bloquinhos, cadernetas e até cadernos, para anotar palavras;
sempre considerei isso meio estranho.
Faziam parte de
sua coleção palavras de peso; assim,
ostentava seu conhecimento aos coleguinhas da vizinhança e do colégio.
Quando incluía uma
palavra nova em uma frase qualquer, gostava de ver o espanto e a admiração no
rosto das pessoas. Deviam pensar: -- Quanta inteligência!
Com relação ao
significado de todos os itens da coleção, confessava a si mesma que não os
conhecia: como poderia sabê-los, se tinha só 8 anos?
Um dia, na saída
da escola a caminho de casa, sob o sol escaldante do meio-dia a queimar-lhe a
pele, ouviu um curioso diálogo entre duas mulheres que se encontravam paradas
no caminho:
— Você já viu a filha da Dora, a que chegou do Rio de
Janeiro?
— Aquela que só anda pendurada no pescoço do namorado? Vi,
sim. É bonita, mas é uma devassa!
Ao ouvir tal
palavra, nossa personagem ficou impactada: jamais ouvira palavra tão linda!
Para não esquecer tanta beleza, acelerou o passo e correu para casa. Assim que
chegou, pegou o bloquinho e escreveu na primeira linha, com letra
caprichada:
de-va-ça (achou que era assim a
ortografia )
Palavra anotada,
tratou de guardar o bloquinho cuidadosamente na pasta do grupo escolar onde
estudava. Afinal, aquele bloquinho continha um tesouro— Pensou.
O sol anunciou um
novo dia.
A mãe, como sempre
fazia, acordou a filharada para a escola. Na mesa, o café com leite e pão e a
manteiga de sempre; o desjejum básico de toda sua infância. Uma delícia.
Uniformizada e
penteada, nossa personagem se aproxima da porta para sair. Porém, hesitante,
faz uma pausa e dirige-se a sua mãe:
— Mamãe, hoje é o
aniversário da minha professora. Não tenho nenhum presente pra levar.
Ao que a mãe
prontamente respondeu com sua incomparável sabedoria:
— Minha filha, queres
entregar um presente para tua professora?
Dá um abraço nela e entrega-lhe um cartão escrito por ti. Capricha na
letra e escreve quatro ou cinco frases de afeto. As professoras gostam disso.
Animada, a
criança caminha até o grupo escolar. Depois do sinal de entrada, as turmas
ocupam as respectivas salas de aula.
Na turma de
nossa personagem, os alunos, um a um, levantam-se para cumprimentar a jovem
professora. Ela estava radiante, mais bonita do que nos outros dias; havia
bandeirinhas e flores de várias cores, feitas em papel crepom, enfeitando o
ambiente e, sobre a mesa, presentinhos embrulhados em papel de presente e em
papel de pão. Era uma alegria só!
Alunos e
professoras visitantes das salas vizinhas, estavam sorridentes, agitados,
aguardando o grande momento da festa, algo esperado por todos: um belo bolo de
chocolate, com vela e tudo, que, na hora certa, seria servido.
Diante daquela efervescência, nossa
colecionadora de palavras caprichou no “cartão” (na verdade, precisou arrancar
uma página em branco de seu caderno de desenho, para fazê-lo). Abusou de
borboletas, flores e corações. Trabalho feito, assinou seu nome, dobrou o papel
e aproximou-se da professora: abraçou-a timidamente e, orgulhosa, entregou-lhe
seu presente.
O
PRESENTE
A professora,
encantada com tanto carinho, abriu a folha de papel que acabara de receber de
uma de suas alunas favoritas. Então, deparou-se com isto:
1) Minha Professora Lurdinha.
2) Eu gosto da senhora.
3) A
senhora é bonita e se pendura no pescoso
do seu namorado.
4) A
senhora é uma de-va-ça
- devaça
5) Parabéns pra voce neça data qerida.
Assinado: Helena
O
FINAL
Ao ler o bilhete,
a professora Lurdinha caiu em prantos. A diretora foi chamada. A festinha foi
cancelada. Nossa colecionadora foi retirada da escola, levando para casa um
bilhete da diretora para seus pais, intimando-os a comparecer à diretoria.
Claro que os pais foram correndo. Parece que
houve uma longa conversa entre os pais, a professora e a diretora. Terminou
tudo bem.
No dia seguinte, a
colecionadora de palavras ganhou dos pais
um dicionário. Sem reprimendas.
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